O desafio das mudanças na prática docente

23 agosto 2019

Uma parceria Porvir | EDUforics

Por Marcia Braghini Deus Deu

Como levantar a bandeira da mudança dentro de uma escola?

Como ajudar o professor a mudar sua prática docente, de forma a tornar suas aulas menos expositivas e adotar uma postura mediadora no processo de aprendizagem do aluno? Talvez esse seja um dos dilemas que muitas escolas vivem!

Cada vez mais ouvimos falar em metodologias ativas, aluno como protagonista, desenvolvimento de competências e habilidades… tudo para que a aprendizagem do aluno tenha um maior significado. No entanto, ainda ouvimos muitos gestores falarem que, por mais oficinas e estudos que promovam, parece difícil para o professor mudar sua prática em sala de aula.

Quando resolvi implantar uma nova metodologia e rotina escolar, de maneira a tornar a aprendizagem do aluno mais significativa e colocá-lo no centro do processo, busquei entender sobre o que leva o professor a “não abraçar” um trabalho com projetos, por exemplo. Ou, por que um professor tem dificuldades em planejar atividades interdisciplinares? Ou ainda, por que o professor fala em mudar, mas não consegue colocar novas práticas em sua rotina?

As respostas que encontrei, em sua maioria, giram em torno de um único ponto: o conteúdo programático das disciplinas. Seja qual for a escola em que o professor atua, parece que a questão do conteúdo está sempre em pauta. Quem já não ouviu na sala dos professores: “não consegui dar todo o conteúdo que planejei”; “meus alunos não aprenderam o conteúdo que trabalhei”; “trabalhei tão bem este conteúdo, e os alunos foram mal na prova”; e muitas outras queixas parecidas.

Foi a partir dessa questão que levantei a bandeira da mudança em nossa escola: se o “conteúdo” da disciplina é tão importante para o professor, talvez o caminho seja mostrar a ele (na prática) que é possível um trabalho diferenciado sem deixar esse conteúdo programático de lado; “possivelmente, os professores serão menos resistentes às novas propostas”, pensei.

Foi então que estabeleci estratégias para mostrar aos professores que seria possível os alunos aprenderem os conteúdos de maneira diferente das aulas expositivas. A ideia era provocar a interdisciplinaridade, buscando dar um “sentido” maior ao “conteúdo programático”.

Depois de reler e estudar diferentes teorias e autores, conhecer outras escolas chamadas inovadoras, entendendo como era a prática educativa, sua rotina diária e me alimentar de pensamentos inovadores, procurei alguns professores para lançar a ideia de uma transformação na escola.

Logo, as conversas individuais se transformaram num grupo de estudos para discutir como relacionar os conteúdos de diversas disciplinas e séries para que depois pudéssemos elaborar projetos interdisciplinares. Após cada encontro com um grupo de professores eu rascunhava esboços de onde poderíamos partir. Claro que entre uma e outra tentativa e as horas de trabalho braçal debruçada sobre um mapa de conteúdos, muitas vezes me cansavam e me frustravam. Mas foi a partir dessas diversas tentativas que brotaram novas ideias.

A cada encontro as ideias fluíam e a cada dia pensávamos em algo diferente. Um misto de ansiedade, preocupação, medo, pensamentos negativos (será que vai dar certo?) se misturavam à empolgação e otimismo. O tempo nos engolia!

Avançar num planejamento de trabalho concreto estava difícil. Foi então que ouvi de um amigo e conselheiro: “Por que planejar tudo era tão importante? Qual a necessidade de “colocar tudo” no papel de maneira organizada?”

Abortamos a ideia de um planejamento detalhado e começamos a focar em outro ponto: quem criaria os projetos, os professores ou os alunos? Se fossem os professores, era necessário definir os projetos do ano todo para os alunos escolherem quais desenvolveriam primeiro? Os alunos ficariam mais motivados se soubessem dos projetos propostos para todo o ano letivo? Quem criaria as tarefas dos projetos, os alunos ou os professores? O que motivaria mais os alunos?

Pronto, mais um dilema! Nenhumas dessas perguntas eram fáceis de responder. Estávamos criando algo do zero em que não havia (e ainda não há) receita pronta!

Como avançar na proposta que estávamos idealizando? Foi então que um professor deu a ideia de fazermos um projeto piloto. E assim, em 2014, faltando apenas quatro semanas de aula para encerrar o ano letivo, colocamos em prática nossas primeiras ideias! Loucura? Claro, mas se não nos encorajássemos a fazer, não conseguiríamos sair do lugar.

Ousamos, arriscamos, e de repente ajudamos todos os professores e alunos a saírem da zona de conforto. E desde então, nos vimos construindo um novo modelo de educação, em que o aluno realmente é protagonista – ora aprende, ora ensina. E o professor é mediador – também ora ensina, ora aprende.

E assim nos tornamos uma escola que ensina e aprende a cada novo desafio e novas experiências. Hoje, metade do tempo da rotina diária dos alunos dos anos finais do ensino fundamental e ensino médio é dedicado ao trabalho com projetos interdisciplinares e interséries. E o professor continua “dando conta” de seu conteúdo. E a escola continua em pleno MOVIMENTO!


Publicado originalmente em Porvir