Escolas saudáveis. Comer bem para aprender melhor

22 abril 2025
Uma nutrição adequada desde a primeira infância contribui ao desenvolvimento cognitivo e à melhoria na aprendizagem, além do mais de uma vida mais saudável (imagem: iStock).

A comida fala sobre nós, de nossas emoções, nossas relações e, também, de nossas aprendizagens. O refeitório escolar se converte, deste modo, em um espaço fundamental para o desenvolvimento integral e a educação para o desenvolvimento sustentável.

A história tem sido, em boa parte, a história da busca de comida, mas, graças aos processos de industrialização agrícola e ao desenvolvimento da indústria alimentícia, a escassez de alimentos tem dado lugar, nos países desenvolvidos, ao problema contrário, o sobrepeso e a obesidade, que se estendem com dimensões quase epidêmicas.

Segundo as estimativas do Atlas Mundial da Obesidade 2025, recentemente publicado, cerca de 50% da população adulta terá sobrepeso ou obesidade até 2030 – um fator associado à hipertensão, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e alguns cânceres -, o que pode tensionar os sistemas sanitários e ocasionar um elevado custo econômico e social. E mais preocupante ainda é o crescimento contínuo da obesidade infantil, que não se circunscreve ao Primeiro Mundo, senão que se estende imparável pelos países menos desenvolvidos como consequência, entre outras coisas, da globalização dos alimentos ultraprocessados, mais baratos que os naturais, mas com um impacto muito mais negativo no meio ambiente e na saúde.

Excesso convive com escassez. Enquanto cresce o problema da obesidade, a distribuição alimentar segue sendo desigual e injusta, de modo que segundo o relatório O estado da segurança alimentar e a nutrição no mundo (SOFI 2023), que foi elaborado por cinco organismos das Nações Unidas, 733 milhões de pessoas seguiam passando fome (o que equivalia a uma de cada 11 pessoas no mundo), uma quantidade que superava em mais de 122 milhões de pessoas as que enfrentavam à fome em 2019. O incremento se devia à pandemia e às reiteradas perturbações relacionadas com as crises climáticas, as migrações forçadas, a crise econômica e os conflitos armados, incluída a guerra na Ucrânia.

El Correo, da Unesco, de abril-junho, aborda com rigor estas problemáticas e oferece diversas visões sobre o impacto cultural, social, ético, econômico e educativo da alimentação, assim como sua importância na educação para o desenvolvimento sustentável.

Nutrição saudável nos colégios

No último 15 de abril, o Conselho de Ministros aprovou o Real Decreto de Refeitórios Escolares Saudáveis e Sustentáveis, um pacote de medidas que pretende converter os refeitórios de todos os centro educativos de Espanha – públicos, conveniados e privados – em espaços de referência para uma alimentação saudável, variada e respeitosa com o ambiente, com independência do nível de renda das famílias, e com base nas recomendações sanitárias de organismos científicos como a AESAN (Agência Espanhola de Segurança Alimentar e Nutrição) ou a OMS (Organização Mundial de Saúde).

O real decreto sinaliza que todas as instituições escolares com refeitório devem garantir aos estudantes um consumo diário de fruta e verdura fresca, especificando que ao menos o 45% da fruta e dos vegetais a serem servidos sejam de temporada, para fomentar modelos de refeitórios mais saudáveis e mais sustentáveis, e, ao mesmo tempo, para reforçar a produção local. A norma estabelece, ainda, a obrigação de servir entre uma e três porções de pescado por semana. Da mesma forma, incentiva a presença de legumes nos cardápios, no primeiro ou segundo prato, ou, ainda, como acompanhamento. No caso dos cereais, o real decreto estipula que semanalmente se ofereça, ao menos, uma porção de arroz ou massa integral, além de pedaços de pão integral. Por outro lado, proíbe as bebidas adoçadas e industrializadas, tanto nos cardápios quanto nas máquinas de venda automática ou nas lanchonetes das instituições escolares. Também se limitam os pratos pré-cozidos como pizzas, empanadas ou frituras congeladas a somente uma porção por mês.

Aprendizagem e nutrição

Em março deste ano, publicou-se o relatório Educação e nutrição: aprender a comer bem (disponível em inglês) que vincula, de maneira direta, a nutrição com a educação e sustenta que saber comer bem é fundamental para o desenvolvimento integral.

O relatório, que tem sido elaborado pela equipe do Relatório do Seguimento da Educação no Mundo (GEM) da Unesco junto à Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, sustenta que a educação nutricional deve ocupar um lugar central na agenda política global. Não se trata só de promover dietas equilibradas, mas de garantir que todas as crianças tenham acesso a comidas escolares saudáveis. Os dados de Unicef são contundentes: 148 milhões de crianças, menores de cinco anos, apresentam atraso no crescimento e 45 milhões têm um peso inferior ao normal, consequências diretas da má nutrição. Estas cifras evidenciam a magnitude do problema e sublinham a urgência de incorporar estratégias que assegurem uma boa nutrição desde a primeira infância.

Diversas pesquisas têm demonstrado que uma alimentação adequada nos primeiros anos não só influi na saúde física, mas tem efeitos profundos no desenvolvimento cognitivo e na prevenção da violência. E, inversamente, uma desnutrição, na infância, conduz a problemas de déficit de atenção e de gestão das funções executivas durante a vida adulta. Portanto, uma nutrição adequada, desde a infância, contribui a uma melhoria na aprendizagem e a uma vida mais saudável.

Diante este cenário, o relatório propõe três linhas de atuação básicas:

  • Em primeiro lugar, recomenda-se garantir o acesso universal a comidas nutritivas. Isto implica não só dispor de alimentos adequados nas escolas, senão também assegurar que estes sejam de qualidade, frescos e adaptados às necessidades de cada população. A meta é que cada criança possa contar com uma alimentação que favoreça seu crescimento e seu rendimento escolar.
  • Em segundo lugar, destaca-se a importância de promover uma educação alimentar, isto é, ensinar aos estudantes, desde pequenos, a reconhecer alimentos saudáveis, entender os efeitos da nutrição no corpo e no cérebro, e aprender a escolher de forma consciente o que comem. Esta formação nutricional pode traduzir-se para além de explicar as qualidades de cada alimento; trata-se de incorporar hábitos que perdurem ao longo da vida e que contribuam a melhorar a formação e responsabilidade sobre a saúde.
  • Por último, o relatório pede uma regulação estrita na comercialização de alimentos pouco saudáveis destinados às crianças. Em um contexto no qual o mercado oferte produtos altos em gorduras, açucares e sal, é fundamental estabelecer medidas que protejam às crianças em idade escolar e freiem a expansão de opções inadequadas para seu desenvolvimento. Ainda, impulsiona-se o desenvolvimento de sistemas alimentares sustentáveis e respeitosos com a biodiversidade, entre eles, iniciativas de “quilômetro zero” ou que conectem o campo com a escola. Estes tipos de projetos não só melhoram a qualidade da dieta escolar, como também sensibilizam à comunidade sobre a importância de cuidar do meio ambiente e conservar a diversidade de nossos cultivos.

Trata-se, portanto, de recuperar nossos vínculos com os alimentos, e de entender que aprender a comer é um pilar essencial para uma educação de qualidade e para a construção de sociedades mais justas e sustentáveis.