A integração do Carisma na prática de ensino: caminhos para aproximar a identidade confessional do cotidiano escolar

O texto apresenta uma experiência desenvolvida a partir do componente curricular Ensino Religioso, buscando evidenciar possibilidades de integração entre currículo, formação humana, identidade confessional, a partir da experiência realizada com estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental. A reflexão nasce de uma inquietação: como integrar de forma coerente e significativa os conteúdos do Carisma nas propostas de aprendizagem dos estudantes?
Quando uma inquietação começa a abrir caminhos
Os ensinamentos de Clélia Merloni, fundadora do Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, sempre estiveram presentes em nossos Colégios. Estão nas celebrações, nas orações, nos projetos, nos símbolos, nas histórias que contamos e em tantos momentos que ajudam nossos estudantes a conhecerem as raízes da identidade católica da Sagrado Rede de Educação.
Mas, no acompanhamento às Unidades Educacionais, uma inquietação começou a nos acompanhar: Mais do que apresentar aos estudantes quem foi Clélia Merloni, poderíamos criar oportunidades para que os alunos se aproximassem de sua história de um jeito diferente? Seria possível ajudá-los a perceber que suas escolhas, sua espiritualidade, seus escritos e até mesmo os desafios que atravessaram sua vida ainda podem provocar perguntas muito atuais?
Não desejávamos simplesmente acrescentar aos planejamentos uma atividade sobre Clélia Merloni. A inquietação era integrar o Carisma ao currículo. Começamos a observar com mais atenção aquilo que os estudantes já precisavam aprender e a buscar relações que fossem verdadeiras, pedagogicamente coerentes e capazes de produzir sentido.
Não queríamos apenas acrescentar, queríamos integrar
Na Pastoral Escolar da Rede, esse movimento foi sendo amadurecido no diálogo com quem está no cotidiano das escolas. A aproximação com a Coordenação de Ensino Religioso do Colégio, a revisão dos planejamentos e as partilhas sobre aquilo que desejávamos para a formação dos estudantes foram mostrando que havia possibilidades ainda pouco exploradas.
Queríamos descobrir como aquilo que já ensinávamos poderia encontrar, na vida e na espiritualidade de Clélia Merloni, novas possibilidades de aprendizagem e de construção de sentidos.
Aos poucos, percebemos que o Carisma Cleliano não precisava aparecer ao lado do currículo, como um complemento confessional. Em determinados temas, ele poderia integrar o próprio percurso de aprendizagem, considerando que toda experiência religiosa está ancorada no tempo e no espaço.
Essa compreensão também encontra eco na missão educativa da escola católica, chamada a favorecer a síntese entre cultura e fé e entre fé e vida (CEC, 1977, n. 37-39). E foi justamente quando começamos a olhar dessa maneira que uma possibilidade apareceu no componente curricular Ensino Religioso, no 9º ano do Ensino Fundamental.
Vida, morte, memória e legado: uma experiência com o 9º ano
Ao olhar para a matriz curricular do 9º ano e para as possibilidades de trabalho propostas para o Ensino Religioso, identificamos a temática: as diferentes concepções de vida e morte presentes nas tradições religiosas e culturais.
A partir desse eixo, foi possível ampliar o olhar para questões relacionadas às concepções de pós-morte, aos ritos fúnebres, à memória, aos símbolos e às diferentes formas encontradas pelas sociedades para expressar seus sentimentos diante da finitude e da ausência.
A proposta buscou compreender a morte como uma experiência humana que recebe diferentes significados conforme a cultura, a tradição religiosa e a história de cada comunidade. Os estudantes foram convidados a perceber que, diante da morte, as pessoas criam ritos, símbolos, espaços de memória e formas de homenagem que revelam valores, crenças, afetos e maneiras de compreender a existência.
Foi nesse percurso que surgiu a possibilidade de aproximar esse objeto de conhecimento com a história e a espiritualidade de Clélia Merloni. Como parte da experiência didática, realizamos uma visita ao Memorial Clélia Merloni, localizado próximo ao Colégio. O momento proporcionou aos estudantes uma aproximação significativa com sua história e seu legado. Durante a visita, tiveram contato com relíquias de Clélia Merloni, conhecendo objetos e elementos diretamente relacionados à sua trajetória e à preservação de sua memória.
Todo esse percurso foi acompanhado e explicado por uma religiosa do Instituto, que conduziu os estudantes pelos espaços do Memorial e compartilhou informações sobre a vida de Clélia, seu caminho de fé, sua missão e a importância daqueles objetos para a preservação de sua história.
Essa mediação possibilitou compreender o significado das relíquias dentro da tradição religiosa e perceber que elas não são apenas objetos antigos, mas testemunhos materiais que ajudam a manter viva a memória de uma pessoa e de sua missão.
O contato direto com as relíquias tornou concreto um dos conceitos trabalhados em sala: a relação entre memória, símbolos e tradição religiosa. Os estudantes puderam observar como determinados objetos podem carregar significados afetivos, históricos e religiosos e como são preservados e transmitidos às novas gerações.
A visita contribuiu, ainda, para que o conceito de memória adquirisse um significado mais concreto. Preservar a memória de uma pessoa não significa apenas recordar sua existência, mas também reconhecer os valores, as escolhas e o legado que permanecem vivos naqueles que continuam sua história.
Nesse sentido, a presença de Clélia Merloni na experiência didática não aconteceu como um conteúdo isolado e fragmentado, mas como uma possibilidade de estabelecer uma relação significativa entre currículo e identidade institucional.
Ao conhecer sua trajetória, entrar em contato com suas relíquias e ouvir os relatos compartilhados pela religiosa, os estudantes puderam refletir sobre como uma existência pode continuar produzindo sentido mesmo depois da morte.
A experiência também possibilitou compreender que diferentes tradições religiosas e culturais constroem distintas compreensões sobre a morte, o pós-morte, a memória e os sentidos atribuídos à existência. Ao conhecer diferentes ritos e símbolos, os estudantes foram estimulados a desenvolver uma postura de respeito diante da diversidade religiosa, reconhecendo que cada tradição constrói seus próprios significados para questões profundamente humanas.
A visita ao Memorial tornou-se, assim, um momento privilegiado de aprendizagem. O espaço permitiu que os estudantes percebessem que a memória não está apenas nos livros: ela também pode estar presente nos lugares, nos objetos, nas imagens, nos relatos e nos símbolos que ajudam a contar uma história.
A partir dessa vivência, surgiram também reflexões sobre a própria existência: o que deixamos nas pessoas com quem convivemos? Que marcas construímos em nossas relações? Como gostaríamos de ser lembrados?
Essas perguntas ajudaram a ampliar a proposta para além dos objetos de conhecimento conceituais, favorecendo uma reflexão sobre escolhas, valores, relações e responsabilidade diante da própria vida.
Ao final, compreendemos que trabalhar as concepções de vida, morte e pós-morte também é uma forma de falar sobre a própria vida. Refletir sobre os ritos é compreender a diversidade humana; conhecer espaços de memória é reconhecer a importância das histórias que nos precederam; e conhecer, a modo de exemplo, a trajetória de Clélia Merloni, que é considerada inspiração para outras gerações.
Dessa forma, a experiência realizada com o 9º ano mostrou como o currículo pode abrir caminhos para aprendizagens que articulam conhecimento, vivência e formação humana. A visita ao Memorial possibilitou aos estudantes não apenas conhecer uma história, mas experimentar a memória, reconhecer um legado e refletir sobre aquilo que cada pessoa pode deixar no mundo por meio de sua maneira de viver e de ser.
Um Carisma que se exemplifica no encontro
Os estudantes puderam conhecer a história de Clélia Merloni, visitar o Memorial, aproximar-se de suas relíquias e realizar, de forma on-line, uma visita guiada à urna que conserva seu corpo na Capela da Casa Geral, em Roma. Aquilo que estudavam sobre vida, morte, memória e transcendência ganhava, assim, uma dimensão concreta.
O encontro com as religiosas trouxe outra dimensão para aquilo que estávamos propondo. No acolhimento, nas conversas, nas histórias partilhadas e no testemunho de quem escolheu seguir essa missão, os estudantes puderam entender o sentido do Carisma para as instituições religiosas, entre elas para as escolas católicas (CEC, 2002, n. 57-59).
Naquela aula, os estudantes não encontraram apenas uma história para conhecer. Encontraram pessoas que fizeram daquela história uma escolha de vida, que se conecta diretamente com a escola onde eles estudam.
Quando uma experiência de uma Unidade começa a provocar a Rede
Na Assessoria pedagógica, uma experiência como essa também nos faz olhar para além do lugar onde ela nasceu. Quando encontramos uma prática que consegue aproximar currículo, experiência e identidade, uma pergunta surge quase naturalmente: que possibilidades isso abre para as outras Unidades educacionais da Rede?
Não para reproduzir a mesma experiência em todos os lugares, tendo em vista as diferentes realidades e características próprias das unidades. Algumas estão próximas de espaços históricos; outras contam com a presença cotidiana das religiosas nas escolas; outras podem recorrer a cartas, escritos, relíquias, testemunhos, recursos digitais, visitas pedagógicas ou experiências construídas a partir da própria comunidade.
O que pode nos unir não é necessariamente uma mesma atividade. É uma mesma intencionalidade educativa.
Esse movimento também traduz um aspecto importante do trabalho de Assessoria pedagógica de uma rede: acompanhar o que nasce nas Unidades Educacionais, reconhecer experiências que carregam potencial multiplicador, favorecer o diálogo entre as pessoas e ajudar aquilo que foi aprendido localmente a se transformar em possibilidades que podem ser exploradas.
E os estudantes começaram a nos devolver novas perguntas
Quando o currículo saiu do papel e encontrou espaços, objetos, histórias, testemunhos e pessoas, os estudantes também passaram a se relacionar de outra maneira com aquilo que estavam aprendendo.
Começamos a perceber perguntas mais profundas, curiosidade diante da história de Clélia Merloni, interesse pelo significado das relíquias e dos espaços de memória e uma aproximação com as religiosas.
Temas como vida, morte, memória, esperança e transcendência deixaram de permanecer somente no campo conceitual. E isso nos fez perceber algo muito simples: quando uma aprendizagem encontra a vida, ela ganha outro significado.
Talvez não seja possível medir imediatamente tudo aquilo que uma experiência assim produz, mas é possível observar, escutar, acompanhar e guardar as perguntas que surgem.
Ainda estamos a caminho
A experiência nos fez perceber que o currículo pode ser lugar de encontro: com uma história, com uma espiritualidade, com pessoas, com perguntas e, sobretudo, com possibilidades de sentido para a própria vida.
Talvez esse movimento também possa ser compreendido como um exercício de fidelidade criativa ao Carisma: voltar às nossas raízes não para simplesmente repetir o que sempre fizemos, mas para permitir que a riqueza que recebemos encontre novas formas de dialogar com o tempo presente (CEC, 2002, n. 13).
Fabiane Aparecida Pereira. Graduada em Pedagogia, Letras e Filosofia, especialista em Ensino Religioso Escolar. Atua como Assessora de Pastoral Escolar e Ensino Religioso da Sagrado Rede de Educação – São Paulo/SP, contribuindo para a articulação entre educação, espiritualidade, formação humana e identidade católica no contexto escolar.
Francine Maria Felisoni Nogueira. Graduada em Pedagogia, História e Geografia, especialista em Gestão, Supervisão e Direção Escolar. Atua como Coordenadora de Área de Ensino Religioso, Professora de Ensino Religioso e História no Colégio Sagrado Coração de Jesus – São Paulo/SP, contribuindo para a integração entre currículo, formação humana e os processos de ensino e aprendizagem.
Referências
- CEC-CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA. A Escola Católica. Roma, 19 mar. 1977, n. 37-39.
- CEC-CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA. As pessoas consagradas e a sua missão na escola: reflexões e orientações. Roma, 28 out. 2002, n. 57-59.


