A vivência da ecologia integral na escola

15 outubro 2026
Cidadania ecológica é um modo de viver comprometido com o ambiente, entendido como um bem coletivo, comum a toda humanidade e, portanto, responsabilidade de todos (imagem: iStock).

O texto apresenta um projeto escolar no âmbito da educação ambiental, que objetiva promover o cuidado, a interação e o desenvolvimento dos estudantes com a natureza.  A proposta pauta-se nos princípios da educação e espiritualidade ecológicas, no contexto de uma escola confessional. O autor descreve a iniciativa destacando sua relação com a realidade local e a justifica desde uma perspectiva ética e socioambiental.  

Há mais de uma década, a publicação da carta encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco convocou-nos a ler os sinais dos tempos a partir da percepção de que o ser humano não está separado da natureza, mas faz parte dela e com ela constitui a Casa Comum. Em meio a uma sociedade segmentada, individualista e consumista, somos convidados a rever nossas posturas e visões de mundo, bem como nosso senso de pertencimento à humanidade e ao planeta. 

  • “Muitas coisas devem reajustar o próprio rumo, mas antes de tudo é a humanidade que precisa de mudar. Falta a consciência duma origem comum, duma recíproca pertença e dum futuro partilhado por todos. Esta consciência basilar permitiria o desenvolvimento de novas convicções, atitudes e estilos de vida. Surge, assim, um grande desafio cultural, espiritual e educativo que implicará longos processos de regeneração.” (Papa Francisco. Encíclica Laudato Si’, 2015, n.202).

Nesse sentido, emerge o conceito de ecologia integral que, recordando-nos que tudo está interligado, convida-nos a compreender a complexa crise socioambiental que acomete o mundo contemporâneo mediante um olhar consciente e comprometido. 

  • “Cidadania ecológica é um modo de viver comprometido com o ambiente, entendido como um bem coletivo, comum a toda humanidade e, portanto, responsabilidade de todos. Advém da consciência de que habitamos uma Casa Comum e compartilhamos de uma mesma origem e um mesmo destino. Leva em consideração que impactamos os ecossistemas terrestres, aquáticos e os sistemas sociais com as nossas escolhas, modos de produção, consumo, valores e estilo de vida. Em decorrência, demanda uma nova mentalidade em relação aos direitos e deveres para com a nossa Casa Comum. […]. A escola como lócus das práticas, dos processos e das relações condizentes, tem a cidadania ecológica como paradigma, de modo a realizá-la de forma orgânica e sistemática”. (Aleluia Heringer Lisboa Teixeira. Cidadania ecológica. In: Dicionário do Pacto Educativo Global, 2021, p.46).

É pertinente, nesse contexto, recordar o protagonismo que as escolas devem assumir, visto que consistem em ambientes onde as crianças e os adolescentes podem desenvolver atividades de conscientização socioambiental e de valorização da Casa Comum de maneira oportuna, vivenciando valores como respeito, fraternidade, cooperação e justiça social, sobretudo em instituições católicas de ensino, que têm o dever e a missão de agir conforme os valores cristãos. 

Atendendo a uma convocação Igreja e, de modo particular, da ANEC (Associação Nacional de Educação Católica do Brasil) por ocasião da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), o Colégio Passionista Rosário, situado em Colombo, no Estado do Paraná, lançou o Projeto Ecolombo no ano letivo de 2026, que consiste em um conjunto de atividades que visam promover a biodiversidade da região de forma concreta. Inicia-se com a arrecadação de sementes de árvores frutíferas que atraem pássaros e outros animais nativos, mobilizando toda a comunidade escolar. 

Identidade visual do Ecolombo, projeto do Colégio Passionista Rosário, 2026 (acervo próprio do autor).

Posteriormente, essas sementes serão plantadas pelos educandos – da Educação Infantil ao Ensino Médio – e, seguindo as diretrizes do Plano Municipal de Arborização, num terceiro momento as mudas produzidas serão plantadas em locais estratégicos da cidade, como praças e margens de avenidas, além de propriedades privadas onde houver autorização para realizar o plantio.  

As atividades de plantio e de cuidado das mudas plantadas são feitas por educadores e educandos voluntários, coordenados pela Pastoral Escolar do colégio, que executa o projeto como uma Iniciativa Laudato Si’.

Ação de plantio de muda de cerejeira-do-Japão no projeto Ecolombo, do Colégio Passionista Rosário, 2026 (fonte: acervo próprio do autor).

Conscientes de que o meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos, como afirma o Papa Francisco na Laudato Si’, os membros da nossa comunidade educativa buscam colocar em prática os valores humanos e cristãos, além de vivenciar o Carisma Passionista específico de fazer memória da Paixão de Jesus Cristo e das Dores de Maria de forma concreta mediante o cuidado com a Casa Comum, uma vez que “o divino e o humano se encontram no menor detalhe da túnica inconsútil da criação de Deus, mesmo no último grão de poeira do nosso planeta” (Patriarca Bartolomeu, 2012). 

Reconhecendo a educação básica como um âmbito oportuno para desenvolver a consciência socioambiental desde os primeiros estágios da vida e da formação da pessoa humana, o colégio procura atuar em conformidade com o princípio de responsabilidade formulado pelo filósofo Hans Jonas, a saber, “aja de modo que os efeitos de tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a Terra”, além de inserir-se numa mobilização que envolve todas as pessoas comprometidas com a edificação de um mundo mais justo, fraterno e sustentável para todos. 

Recentemente, em 22 de setembro de 2026, foi publicada a Lei n.15.512, que dispõe sobre princípios para a formulação e a implementação de políticas públicas para a efetivação do direito da criança e do adolescente à natureza. No capítulo IV, Da educação baseada na natureza, indica que dever-se-á promover ações, projetos e programas no âmbito da educação ambiental que promovam o contato dos estudantes com a natureza e o desenvolvimento de habilidades ecológicas. O Projeto Ecolombo está alinhado a esse propósito, já que promove, desde o espaço escolar, a “valorização da vegetação local existente e recuperação dos espaços abertos”, priorizando espécies nativas do território, que aumentem a biodiversidade (art.19). Dessa maneira, favorece a integração da escola com o entorno, de forma a ampliar o contato dos estudantes com a natureza e a socialização (art.20).   


Denis Andre Bez Bueno. Mestre e graduado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Possui graduação em Letras, História e Ciências da Religião pelo Centro Universitário Internacional (UNINTER. É professor e coordenador de pastoral no Colégio Passionista Nossa Senhora do Rosário (Colombo-PR). 

 

 Referências 

  •  BARTOLOMEU. Discurso Global Responsibility and Ecological Sustainability: Closing Remarks, I Cimeira de Halki, Istambul (20 de Junho de 2012). 
  • CONTRERAS, Humberto, et al. (orgs.). Dicionário do pacto educativo global = Diccionario del pacto educativo global. Curitiba: ANEC, 2021.
  • JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Tradução de Marijane Lisboa e Luiz Barros Montez. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUC-Rio, 2006.