Educação Infantil em una escola ribeirinha na Amazônia paraense

06 março 2026
Escola Municipal de Educação Infantil Crianças Alegres - Gurupá, Estado do Pará (Fonte: Acervo da autora, 2025).

Este artigo apresenta um relato de experiência sobre práticas pedagógicas desenvolvidas na Educação Infantil, em contexto ribeirinho amazônico, no município de Gurupá, estado do Pará. O relato evidencia os desafios enfrentados no cotidiano escolar ribeirinho, como as dificuldades de acesso à escola, a vulnerabilidade social das famílias e a relação entre escola e comunidade, bem como as potencialidades de uma prática pedagógica baseada no afeto, na escuta sensível e na valorização dos saberes tradicionais e do território.

A Educação Infantil, em contextos ribeirinhos da Amazônia, apresenta especificidades históricas, culturais, sociais e territoriais que exigem práticas pedagógicas sensíveis à realidade das comunidades tradicionais. Nesse sentido, o relato de experiência é um importante instrumento de reflexão crítica sobre a prática docente, permitindo a articulação com saberes construídos no cotidiano escolar e de modo comunitário. Este relato parte da experiência vivida por uma educadora ribeirinha, moradora do Rio Crispim, no município de Gurupá (PA), que, a partir de sua trajetória pessoal e profissional, reflete sobre os desafios e as potências da Educação Infantil em comunidades ribeirinhas.

Ao narrar vivências que atravessam desde o processo de escolarização, em uma escola construída com materiais da própria natureza, até o exercício da docência com crianças da mesma comunidade, evidencia-se a educação como prática social, histórica e emancipadora. Freire (1996) afirmava que a educação deve partir da realidade concreta dos educandos, respeitando seus saberes e promovendo uma prática pedagógica dialógica e libertadora. Para o autor, ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua produção, o que se torna fundamental em contextos ribeirinhos, onde a vivência comunitária é rica em saberes populares.

Nessa lógica, Saviani (2008), ao defender a pedagogia histórico-crítica, reforça que a educação escolar tem papel essencial na formação humana e na transformação social. Mesmo em contextos marcados por desigualdades sociais, como ocorre em muitas comunidades ribeirinhas, a escola deve garantir o acesso ao conhecimento sistematizado, sem desconsiderar a realidade concreta dos educandos. Assim, a prática pedagógica na Educação Infantil deve articular o saber cotidiano ao saber científico, contribuindo para o desenvolvimento integral das crianças. Nessa lógica, Brandão (2007) complementa essa discussão ao sinalizar que a educação acontece para além dos muros da escola, envolvendo a comunidade, a cultura e as relações sociais. Na Educação Infantil ribeirinha, essa concepção se expressa na participação das famílias, no apoio de organizações comunitárias a exemplo da Associação das Mulheres Ribeirinhas do Distrito de Itapuã município de Gurupá – AMURG, nas pastorais da Igreja Católica e na integração entre educação, cuidado, saúde e cidadania.

Fonte: Acervo da autora, 2024.

A metodologia pedagógica adotada na Educação Infantil ribeirinha dialoga diretamente com o território, os modos de vida, o trabalho, a cultura e as relações familiares da comunidade. As práticas educativas se constroem a partir da escuta das crianças, da observação do cotidiano, da valorização das experiências locais e da interação entre escola, família e comunidade, reconhecendo a criança como sujeito histórico e de direitos.

Dessa forma, o presente relato de experiência parte da necessidade de dar visibilidade às práticas pedagógicas desenvolvidas na Educação Infantil ribeirinha, valorizando o protagonismo de educadoras que vivenciam o território e compreendem a educação como um ato de amor, compromisso e resistência. Ao compartilhar essa trajetória, buscamos contribuir para o fortalecimento de uma educação contextualizada, humanizadora e comprometida com a realidade das populações ribeirinhas da Amazônia.

O relato de Lorrana, professora ribeirinha de Educação Infantil

Professora Lorrana e estudantes na escola Crianças Alegres (fonte: Acervo da autora, 2025).

Meu nome é Lorrana, tenho 24 anos, sou moradora do Rio Crispim, localizado no município de Gurupá, na comunidade de Itatupã, no estado do Pará, me reconheço como mulher ribeirinha. Minha trajetória educacional e profissional está profundamente ligada ao território, às águas, às famílias e à comunidade onde vivo. Iniciei minha vida escolar em uma pequena escola chamada Crianças Alegres, construída com materiais simples, principalmente açaizeiros. As condições eram precárias, inclusive no que se refere à alimentação escolar, que utilizava utensílios reaproveitados. Apesar disso, aquele espaço representava a possibilidade de acesso à educação. Após concluir o Ensino Fundamental, não tinha o Ensino Médio na comunidade, sendo necessário se deslocar até a cidade para continuar os estudos. Concluí o Ensino Médio e, posteriormente, ingressei no curso de Licenciatura em Pedagogia. Ao finalizar a graduação, retornei para minha comunidade.

Atuei, inicialmente, na Educação de Jovens e Adultos (EJA), experiência marcada pela escuta de histórias de vida, pelo diálogo intergeracional e pelo acompanhamento das realidades familiares dos educandos. Essa vivência reforçou a compreensão de que a educação se constrói na troca de saberes e no reconhecimento da experiência do outro como conhecimento legítimo (Freire, 1996). Posteriormente, passei a atuar na Educação Infantil, lecionando para turmas de Jardim I, Jardim II e Pré-Escola, na mesma escola onde fui alfabetizada. Ensinar os filhos de antigos colegas e vivenciar esse retorno como professora fortaleceram o sentimento de pertencimento e responsabilidade social e comunitária.

As crianças utilizam embarcações para chegarem à escola, e muitas famílias vivem em situação de vulnerabilidade social, o que impacta na frequência escolar e no acompanhamento pedagógico. Quando falo de famílias mais vulneráveis quero dizer que algumas famílias, no período da safra do açaí, acabam levando as crianças para o trabalho e, com isso, elas não vêm a escola. Mas, esse ano 2025, após muita conversa com as famílias, essa realidade vem diminuindo. Apesar das dificuldades, o trabalho com as crianças é marcado pelo afeto, pelo vínculo e pela construção de aprendizagens significativas, reafirmando a educação como um ato de amor e compromisso social (Freire, 1996).

A Educação Infantil ribeirinha

Os estudos sobre a Educação Infantil ribeirinha, segundo Oliveira (2018), indicam que as crianças constroem significados a partir de suas interações com o território, o rio e com as relações sociais estabelecidas no cotidiano. Nesse sentido, Oliveira et al. (2022) destacam que “o rio é o caminho que leva à escola”, evidenciando-o como elemento central da experiência educativa das crianças ribeirinhas.

Às margens do Rio Crispim - Estudantes ribeirinhos chegam de barco à escola (fonte: Acervo da autora, 2024).

Nesse contexto, questiona-se: de que maneira as águas e as marés influenciam o percurso até a escola e como essas experiências são incorporadas às práticas pedagógicas da Educação Infantil ribeirinha? Essa lógica de educação integrada à realidade dos sujeitos se conecta com o relato da professora Lorrana, no qual o deslocamento fluvial é parte indissociável da rotina escolar e influencia tempos, relações e vivências pedagógicas.

De acordo com Priore (2004), a infância deve ser compreendida como uma construção histórica e social, reforçando que as experiências vividas pelas crianças em contextos ribeirinhos constituem elementos fundamentais de suas identidades. Assim, a prática pedagógica, na Educação Infantil ribeirinha, precisa considerar o território como dimensão educativa, valorizando as vivências das crianças e suas relações com a comunidade.

O relato analisado revela que a prática docente na Educação Infantil ribeirinha contribui para a formação identitária das crianças como sujeitos do campo e das águas, fortalecendo vínculos de pertencimento e reconhecimento cultural. A escuta sensível, o afeto e a valorização das experiências cotidianas descritas constituem práticas que indicam a educação como processo de humanização e reconhecimento. Dessa forma, compreendemos que o relato de experiência não apenas descreve uma prática docente, mas revela a Educação Infantil ribeirinha como um campo legítimo de produção de conhecimento pedagógico, situado e comprometido com a realidade amazônica.

Por fim, ressalta-se a necessidade de construção e fortalecimento de políticas públicas que garantam melhores condições de infraestrutura, formação continuada e apoio às famílias, assegurando o direito à educação das crianças ribeirinhas da Amazônia.

Arlete Gomes dos Santos é pedagoga quilombola e gestora de projetos socioambientais,com trajetória dedicada à educação, à valorização dos saberes tradicionais e à promoção da justiça socioambiental. Mestra em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a pesquisa intitulada “Os desafios do trabalho e da educação nas áreas ribeirinhas: uma análise sobre a Amazônia afuaense”. Assistente social e especialista em Juventude, com atuação pedagógica voltada à educação popular e às políticas de direitos humanos. (Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7484151363096975).

Referências

  • BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação. 49. ed. São Paulo: Brasiliense, 2007.
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
  • SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 11. ed. Campinas: Autores Associados, 2008.
  • OLIVEIRA, Ana Paula Lima Carvalho; SILVA, Iolete Ribeiro da; PRINTES, Jocicleia Souza. Entre a escola e o rio: vivências e desafios da educação infantil ribeirinha. Revista Exitus, v. 12, p. 1–15, 2022.
  • OLIVEIRA, Ana Paula Lima Carvalho de. Os significados construídos pelas crianças da educação infantil ribeirinha de Manaus. 2018. 116 f. Dissertação (Mestrado em Educação) — Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2018. Disponível neste link (acesso em 05/12/2025).