Educação Infantil em una escola ribeirinha na Amazônia paraense

Este artigo apresenta um relato de experiência sobre práticas pedagógicas desenvolvidas na Educação Infantil, em contexto ribeirinho amazônico, no município de Gurupá, estado do Pará. O relato evidencia os desafios enfrentados no cotidiano escolar ribeirinho, como as dificuldades de acesso à escola, a vulnerabilidade social das famílias e a relação entre escola e comunidade, bem como as potencialidades de uma prática pedagógica baseada no afeto, na escuta sensível e na valorização dos saberes tradicionais e do território.
A Educação Infantil, em contextos ribeirinhos da Amazônia, apresenta especificidades históricas, culturais, sociais e territoriais que exigem práticas pedagógicas sensíveis à realidade das comunidades tradicionais. Nesse sentido, o relato de experiência é um importante instrumento de reflexão crítica sobre a prática docente, permitindo a articulação com saberes construídos no cotidiano escolar e de modo comunitário. Este relato parte da experiência vivida por uma educadora ribeirinha, moradora do Rio Crispim, no município de Gurupá (PA), que, a partir de sua trajetória pessoal e profissional, reflete sobre os desafios e as potências da Educação Infantil em comunidades ribeirinhas.
Ao narrar vivências que atravessam desde o processo de escolarização, em uma escola construída com materiais da própria natureza, até o exercício da docência com crianças da mesma comunidade, evidencia-se a educação como prática social, histórica e emancipadora. Freire (1996) afirmava que a educação deve partir da realidade concreta dos educandos, respeitando seus saberes e promovendo uma prática pedagógica dialógica e libertadora. Para o autor, ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua produção, o que se torna fundamental em contextos ribeirinhos, onde a vivência comunitária é rica em saberes populares.
Nessa lógica, Saviani (2008), ao defender a pedagogia histórico-crítica, reforça que a educação escolar tem papel essencial na formação humana e na transformação social. Mesmo em contextos marcados por desigualdades sociais, como ocorre em muitas comunidades ribeirinhas, a escola deve garantir o acesso ao conhecimento sistematizado, sem desconsiderar a realidade concreta dos educandos. Assim, a prática pedagógica na Educação Infantil deve articular o saber cotidiano ao saber científico, contribuindo para o desenvolvimento integral das crianças. Nessa lógica, Brandão (2007) complementa essa discussão ao sinalizar que a educação acontece para além dos muros da escola, envolvendo a comunidade, a cultura e as relações sociais. Na Educação Infantil ribeirinha, essa concepção se expressa na participação das famílias, no apoio de organizações comunitárias a exemplo da Associação das Mulheres Ribeirinhas do Distrito de Itapuã município de Gurupá – AMURG, nas pastorais da Igreja Católica e na integração entre educação, cuidado, saúde e cidadania.
A metodologia pedagógica adotada na Educação Infantil ribeirinha dialoga diretamente com o território, os modos de vida, o trabalho, a cultura e as relações familiares da comunidade. As práticas educativas se constroem a partir da escuta das crianças, da observação do cotidiano, da valorização das experiências locais e da interação entre escola, família e comunidade, reconhecendo a criança como sujeito histórico e de direitos.
Dessa forma, o presente relato de experiência parte da necessidade de dar visibilidade às práticas pedagógicas desenvolvidas na Educação Infantil ribeirinha, valorizando o protagonismo de educadoras que vivenciam o território e compreendem a educação como um ato de amor, compromisso e resistência. Ao compartilhar essa trajetória, buscamos contribuir para o fortalecimento de uma educação contextualizada, humanizadora e comprometida com a realidade das populações ribeirinhas da Amazônia.
O relato de Lorrana, professora ribeirinha de Educação Infantil
Meu nome é Lorrana, tenho 24 anos, sou moradora do Rio Crispim, localizado no município de Gurupá, na comunidade de Itatupã, no estado do Pará, me reconheço como mulher ribeirinha. Minha trajetória educacional e profissional está profundamente ligada ao território, às águas, às famílias e à comunidade onde vivo. Iniciei minha vida escolar em uma pequena escola chamada Crianças Alegres, construída com materiais simples, principalmente açaizeiros. As condições eram precárias, inclusive no que se refere à alimentação escolar, que utilizava utensílios reaproveitados. Apesar disso, aquele espaço representava a possibilidade de acesso à educação. Após concluir o Ensino Fundamental, não tinha o Ensino Médio na comunidade, sendo necessário se deslocar até a cidade para continuar os estudos. Concluí o Ensino Médio e, posteriormente, ingressei no curso de Licenciatura em Pedagogia. Ao finalizar a graduação, retornei para minha comunidade.
Atuei, inicialmente, na Educação de Jovens e Adultos (EJA), experiência marcada pela escuta de histórias de vida, pelo diálogo intergeracional e pelo acompanhamento das realidades familiares dos educandos. Essa vivência reforçou a compreensão de que a educação se constrói na troca de saberes e no reconhecimento da experiência do outro como conhecimento legítimo (Freire, 1996). Posteriormente, passei a atuar na Educação Infantil, lecionando para turmas de Jardim I, Jardim II e Pré-Escola, na mesma escola onde fui alfabetizada. Ensinar os filhos de antigos colegas e vivenciar esse retorno como professora fortaleceram o sentimento de pertencimento e responsabilidade social e comunitária.
As crianças utilizam embarcações para chegarem à escola, e muitas famílias vivem em situação de vulnerabilidade social, o que impacta na frequência escolar e no acompanhamento pedagógico. Quando falo de famílias mais vulneráveis quero dizer que algumas famílias, no período da safra do açaí, acabam levando as crianças para o trabalho e, com isso, elas não vêm a escola. Mas, esse ano 2025, após muita conversa com as famílias, essa realidade vem diminuindo. Apesar das dificuldades, o trabalho com as crianças é marcado pelo afeto, pelo vínculo e pela construção de aprendizagens significativas, reafirmando a educação como um ato de amor e compromisso social (Freire, 1996).
A Educação Infantil ribeirinha
Os estudos sobre a Educação Infantil ribeirinha, segundo Oliveira (2018), indicam que as crianças constroem significados a partir de suas interações com o território, o rio e com as relações sociais estabelecidas no cotidiano. Nesse sentido, Oliveira et al. (2022) destacam que “o rio é o caminho que leva à escola”, evidenciando-o como elemento central da experiência educativa das crianças ribeirinhas.
Nesse contexto, questiona-se: de que maneira as águas e as marés influenciam o percurso até a escola e como essas experiências são incorporadas às práticas pedagógicas da Educação Infantil ribeirinha? Essa lógica de educação integrada à realidade dos sujeitos se conecta com o relato da professora Lorrana, no qual o deslocamento fluvial é parte indissociável da rotina escolar e influencia tempos, relações e vivências pedagógicas.
De acordo com Priore (2004), a infância deve ser compreendida como uma construção histórica e social, reforçando que as experiências vividas pelas crianças em contextos ribeirinhos constituem elementos fundamentais de suas identidades. Assim, a prática pedagógica, na Educação Infantil ribeirinha, precisa considerar o território como dimensão educativa, valorizando as vivências das crianças e suas relações com a comunidade.
O relato analisado revela que a prática docente na Educação Infantil ribeirinha contribui para a formação identitária das crianças como sujeitos do campo e das águas, fortalecendo vínculos de pertencimento e reconhecimento cultural. A escuta sensível, o afeto e a valorização das experiências cotidianas descritas constituem práticas que indicam a educação como processo de humanização e reconhecimento. Dessa forma, compreendemos que o relato de experiência não apenas descreve uma prática docente, mas revela a Educação Infantil ribeirinha como um campo legítimo de produção de conhecimento pedagógico, situado e comprometido com a realidade amazônica.
Por fim, ressalta-se a necessidade de construção e fortalecimento de políticas públicas que garantam melhores condições de infraestrutura, formação continuada e apoio às famílias, assegurando o direito à educação das crianças ribeirinhas da Amazônia.
Arlete Gomes dos Santos é pedagoga quilombola e gestora de projetos socioambientais,com trajetória dedicada à educação, à valorização dos saberes tradicionais e à promoção da justiça socioambiental. Mestra em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com a pesquisa intitulada “Os desafios do trabalho e da educação nas áreas ribeirinhas: uma análise sobre a Amazônia afuaense”. Assistente social e especialista em Juventude, com atuação pedagógica voltada à educação popular e às políticas de direitos humanos. (Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7484151363096975).
Referências
- BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação. 49. ed. São Paulo: Brasiliense, 2007.
- FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
- SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 11. ed. Campinas: Autores Associados, 2008.
- OLIVEIRA, Ana Paula Lima Carvalho; SILVA, Iolete Ribeiro da; PRINTES, Jocicleia Souza. Entre a escola e o rio: vivências e desafios da educação infantil ribeirinha. Revista Exitus, v. 12, p. 1–15, 2022.
- OLIVEIRA, Ana Paula Lima Carvalho de. Os significados construídos pelas crianças da educação infantil ribeirinha de Manaus. 2018. 116 f. Dissertação (Mestrado em Educação) — Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2018. Disponível neste link (acesso em 05/12/2025).


