Escola Quilombola Águas do Velho Chico: entre a normatividade curricular e a potência dos saberes do território

15 abril 2026
O contexto da escola é rico em narrativas, práticas e conhecimentos locais que não são suficientemente contemplados na matriz do currículo nacional (fotografia do autor).

O artigo apresenta as características de uma escola no território de Quilombola com uma forte abordagem identitária que busca garantir o direito à educação sem romper com os modos de vida do território, uma abordagem que dialoga com os princípios da Base Curricular Comum Nacional, embora não esteja isenta de tensões.

Neste território, a educação brota como a caatinga [1]: aparentemente seca aos olhos de quem não conhece, mas profundamente fértil para quem aprende a escutar seus sinais. É no chão quente, nas raízes profundas e na resistência das gentes que ali vivem que o conhecimento floresce não como algo dado, mas como algo vivido, partilhado coletivamente. A chegada da Fundação SM Brasil à Escola Quilombola Águas do Velho Chico associada da Unesco não se deu como quem leva algo pronto, mas como quem se dispõe a escutar o que já pulsa. E o que pulsa é uma escola viva, atravessada por histórias, memórias, lutas e saberes que não cabem, por inteiro, nas linhas rígidas da Base Nacional Comum Curricular, mas que insistem em existir, resistir e ensinar.

Assim como a caatinga não se revela de imediato, a educação neste território também exige tempo, presença e sensibilidade. Quando atravessada pela escuta e pelo afeto, ela não apenas acontece ela germina. E germina nas rodas de conversa, nas histórias das mais velhas, nas mãos que fazem a farinha, que benzem e rezam e nas palavras que ainda não foram escritas, mas que sustentam o mundo.

A Escola Quilombola Águas do Velho Chico atende a todas as modalidades da educação básica: Educação Infantil e Ensino Fundamental (212 estudantes), Ensino Médio (85 estudantes) e Educação de Jovens e Adultos (25 estudantes). Mais do que números, trata-se de uma comunidade educativa que carrega em si o compromisso de garantir o direito à educação sem romper com os modos de vida do território.

O ponto de partida desta experiência foi a realização de uma roda de conversa com professoras da Educação Infantil e do Ensino Fundamental I. Nesse espaço, a palavra circulou como água em tempo de chuva: alimentando, conectando, revelando.

O ponto de partida foi a realização de um círculo de conversa com professoras da Educação Infantil e Fundamental I na imagem (fotografia do autor).

Entre as bonitezas, emergiram:

  • A existência de legislação municipal que assegura que os/as docentes sejam do próprio território, fortalecendo vínculos comunitários e identitários;
  • O reconhecimento da identidade quilombola como eixo estruturante da escola;
  • A conquista da ampliação da oferta educacional, com a presença do Ensino Médio e da EJA no território.

Essas conquistas dialogam com os princípios da Base Nacional Comum Curricular, que reconhece, em sua formulação, a diversidade cultural e a necessidade de contextualização. No entanto, o vivido revela que há uma distância entre o que está no papel e o que se concretiza no chão da escola.

Entre a BNCC, a BNC-Formação e a realidade quilombola: tensões e limites

As vozes das professoras evidenciam que ensinar no território quilombola é também lidar com tensões permanentes entre normatividade e vida.

Entre os principais desafios, revelaram:

  • A desconexão entre currículo e território: A matriz curricular nacional, orientada pela Base Nacional Comum Curricular, ainda não contempla de forma efetiva os modos de vida, os saberes e as práticas locais. Surge, então, a pergunta que ecoa nas salas de aula: Como ensinar o que vem pronto sem apagar o que já existe?
  • Oralidade e ausência de registro sistemático: O território é rico em narrativas, práticas e conhecimentos como a produção da farinha, chás medicinais, os saberes das benzedeiras, parteiras e nossas danças culturais e religiosas e cantos esses saberes permanecem, em grande parte, no campo da oralidade, sem sistematização escrita, o que fragiliza sua continuidade no processo pedagógico e para as futuras gerações. Precisamos ler nossa história e nos ler.
  • Falta de materiais didáticos: As professoras expressam a necessidade de materiais que articulem as habilidades e competências da BNCC com a história da comunidade, permitindo uma prática pedagógica com mais sentido histórico local.
  • Formação continuada precarizada: Apesar das diretrizes da Base Nacional Comum para a Formação de Professores enfatizarem a formação docente, na prática ela ocorre de forma, porém precisa acontecer nos horários de trabalho, evitando sobrecarga de trabalho fora do horário estabelecido.
  • Invisibilização curricular dos saberes locais: A grade curricular “não fala sobre nós”, como afirmam as professoras. E, mesmo quando há esforço de inserção, há dificuldade em alinhar essas práticas às exigências formais. Esses elementos revelam uma contradição estrutural: a política pública reconhece a diversidade, mas opera por meio da padronização.

Reimaginar a educação a partir do território

O relatório da UNESCO (2022), Reimaginar nossos futuros juntos, propõe que a educação seja reconstruída como um projeto coletivo, baseado na justiça social, na valorização da diversidade e no reconhecimento de múltiplas formas de conhecimento. No território Águas do Velho Chico, essa proposta já está em curso ainda que de forma não sistematizada.  Assim como a caatinga, que insiste em florescer mesmo diante das adversidades, a educação neste território nos lembra que há sempre sementes esperando condições melhores para germinar.


 

Nota

  1. A Caatinga é um bioma semiárido único do Brasil, caracterizado por vegetação arbustiva espinhosa adaptada a uma estação seca prolongada seguida por chuvas curtas e irregulares, que transformam abruptamente a paisagem de uma aparência seca para um verde exuberante. É um ecossistema com muita biodiversidade e alto endemismo, mas também com muita fragilidade.
A Caatinga se estende por nove estados do nordeste do Brasil, incluindo Ceará, Bahia, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe e parte de Minas Gerais (Imagem do autor).

Referência

  • Comissão Internacional sobre os Futuros da Educação (2022). Reimaginar nossos futuros juntos. Um novo contrato social para a educação. Fundação SM, 2022. Disponível neste link.