Quando uma pergunta muda a aula: reflexões sobre ensinar, pesquisar e aprender na escola 

22 julho 2026
“Professora, por onde entra a água no coco?” Ensinar não significa ocupar o lugar de quem possui todas as respostas; ensinar é, muitas vezes, criar condições para que as perguntas apareçam (imagem: iStock).

A autora reflete sobre a importância de aprender a observar nossa própria prática com curiosidade e disposição para escutar, pois nos tornamos professores não apenas pela acumulação de conhecimento, mas também pela capacidade de compreender criticamente o que fazemos em sala de aula. 

“A existência humana é, porque se faz perguntando, a raiz da transformação do mundo. Há uma radicalidade na existência, que é a radicalidade do ato de perguntar” Paulo Freire e Antonio Faundez. Por uma pedagogia da pergunta.  Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985, p.51 

Professora, a senhora sabe por onde entra a água no coco? 

A pergunta surgiu durante uma aula de Iniciência, disciplina que integra o currículo da Educação em Tempo Integral e que tem como um de seus objetivos despertar nos estudantes a curiosidade, o pensamento crítico e o interesse pela investigação científica. 

Por alguns segundos pensei em responder imediatamente. Seria a atitude mais simples. Bastaria explicar o processo biológico envolvido e seguir com o planejamento da aula. No entanto, aquela pergunta parecia pedir algo diferente. Mais importante do que descobrir a resposta era compreender de onde nascia aquela curiosidade. 

Na aula seguinte, propus um desafio à turma: que cada estudante trouxesse uma pergunta sobre algo que sempre despertou sua curiosidade. Não buscávamos respostas prontas. Queríamos investigar. 

O resultado foi surpreendente. As perguntas surgiram das mais diversas observações do cotidiano: fenômenos da natureza, funcionamento do corpo humano, tecnologia, universo, plantas, animais… A sala de aula transformou-se, ainda que por alguns encontros, em um espaço de investigação compartilhada. Enquanto os estudantes buscavam explicações, eu também aprendia com seus modos de observar o mundo. 

Foi naquela experiência aparentemente simples que compreendi, mais uma vez, que ensinar não significa ocupar o lugar de quem possui todas as respostas. Ensinar é, muitas vezes, criar condições para que as perguntas apareçam. 

Essa vivência fez ecoar uma das reflexões mais conhecidas de Paulo Freire (1996): “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção.” Sempre que retorno a essa frase, penso que ela desloca o centro do trabalho docente. Em vez de compreender o ensino como transmissão, ela nos convida a enxergar a sala de aula como um espaço de construção coletiva do conhecimento. 

Foi justamente essa compreensão que começou a ser construída durante minha formação inicial no curso de Licenciatura em Linguagens e Códigos. Entre tantas aprendizagens proporcionadas por uma licenciatura interdisciplinar, uma permanece orientando minha prática até hoje: compreender a sala de aula como um lugar de investigação. 

Mais tarde, durante o mestrado, essa inquietação transformou-se em objeto de pesquisa. Passei a investigar monografias produzidas por licenciandos que escolheram transformar suas próprias experiências de sala de aula em objeto de estudo. Interrogavam a prática, narravam percursos formativos e refletiam sobre o ensino de Língua Portuguesa (Braga, 2026). 

Ao analisar esses trabalhos, percebi que algo muito importante acontecia durante a escrita. Ao narrar suas experiências, aqueles futuros professores deixavam de apenas descrever o que haviam vivido. Eles interpretavam, problematizavam, atribuíam sentidos e produziam conhecimento sobre a própria prática. 

Foi então que compreendi que a pesquisa não começa quando ingressamos em um programa de pós-graduação. Ela começa quando aprendemos a olhar para nossa prática com curiosidade, disposição para escutar e coragem para formular perguntas. 

Essa percepção dialoga com Antônio Nóvoa (1992) quando afirma que a formação docente acontece na reflexão sobre a própria experiência. Tornamo-nos professores não apenas pelo acúmulo de conhecimentos, mas pela capacidade de compreender criticamente aquilo que fazemos. 

Donald Schön (2000) também nos ajuda a pensar esse movimento ao defender a ideia do profissional reflexivo, aquele que aprende enquanto atua e que transforma os desafios cotidianos em oportunidades de produção de conhecimento. 

Talvez seja justamente por isso que acredito que a pesquisa não pertence apenas às universidades. Ela também habita as escolas. Está presente nas perguntas dos estudantes, nas dúvidas dos professores, nos imprevistos das aulas e nas pequenas situações que nos obrigam a rever certezas. 

Lembro-me de Jorge Larrosa (2019), quando afirma que experiência é aquilo que nos acontece e, sobretudo, aquilo que nos transforma. Nem toda aula se torna uma experiência. Muitas passam. Outras permanecem conosco porque modificam a forma como pensamos o ensino. A pergunta sobre a água do coco continua viva em minha memória porque mudou meu olhar sobre o que significa ensinar. 

Hoje percebo que aquele estudante não me fez apenas uma pergunta sobre botânica. Ele me lembrou que a curiosidade é um dos maiores motores da aprendizagem. E me mostrou que uma sala de aula só permanece viva quando professores e estudantes conservam o direito de perguntar. 

Por isso, quando penso na expressão professor pesquisador, não imagino apenas alguém que publica artigos ou desenvolve projetos acadêmicos. Penso no professor que observa atentamente sua prática, que escuta seus estudantes, que registra experiências, que revê caminhos e que compreende que cada aula pode produzir novos conhecimentos. 

Talvez seja esse um dos maiores desafios da docência: não perder a capacidade de nos surpreendermos com as perguntas que surgem todos os dias. 

Ao recordar minha pesquisa de mestrado e a experiência daquela aula, percebo que ambas convergem para a mesma ideia. A sala de aula não é apenas o lugar onde ensinamos. Ela é, sobretudo, o lugar onde investigamos, aprendemos e produzimos conhecimento sobre o próprio fazer pedagógico. 

E talvez a pergunta que mereça permanecer conosco não seja “como ensinar melhor?”, mas outra, igualmente necessária: como transformar nossas salas de aula em espaços onde a curiosidade, a investigação e a reflexão façam parte da experiência cotidiana de aprender e ensinar? 


Maria Valcirene Oliveira Braga. Mestra em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Letras Bacabal (PGLB), da Universidade Federal do Maranhão – UFMA; integrante do Grupo de Pesquisa Escrita e Produção de Saberes – (GEEPS/UFMA/CNPq), Professora da Rede Pública de Ensino – SEDUC/MA. 

 

 Referências 

  •  FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996. 
  •  LARROSA, Jorge. Tremores: escritos sobre experiência. Tradução de Cristina Antunes e João Wanderley Geraldi. Belo Horizonte: Autêntica, 2019. 
  • NÓVOA, António (Org.). Os professores e a sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1992. 
  • SCHÖN, Donald A. Educando o profissional reflexivo: um novo design para o ensino e a aprendizagem. Tradução de Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed, 2000.
  • BRAGA, Maria Valcirene Oliveira. Escrita de monografia: a experiência de ensino e pesquisa narrada por futuros professores de Língua Portuguesa. 2023. 114 f. Dissertação (Mestrado em Letras) – Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal do Maranhão, São Luís, 2023. Disponível em: Repositório Institucional da UFMA. Acesso em: 21 jul. 2026.