Racismo, sociedade e educação

22 janeiro 2026
Não devemos reduzir o racismo ao âmbito exclusivo da relação pessoal, mas, também, situá-lo como um grande problema de ordem social, institucional, estrutural (imagem: iStock).

Existe uma certa pedagogia dentro das estruturas sociais que naturaliza a subjugação de pessoas com base na cor da pele e na origem étnica; em outras palavras, somos ensinados diariamente a reproduzir atitudes racistas e sexistas. O autor argumenta que denunciar essa realidade cultural é um imperativo educacional e que um processo de formação social explicitamente antirracista, antimachista e desnorteado é necessário para superar esse grave problema.

Iniciemos nossa reflexão com o auxílio de uma forte filopoética:

  • O que é petrificante na experiência de deportação dos africanos para as Américas é, sem dúvida, o desconhecido, enfrentado sem preparo ou desafio. A primeira escuridão foi ser arrancado do país cotidiano, dos deuses protetores, da comunidade defensora. Mas isso ainda não é nada. O exílio é suportável, mesmo quando ele fulmina. A segunda noite foi a da tortura, a da degeneração do ser, vinda de tantos e impensáveis suplícios. Imagine duzentas pessoas socadas em um espaço onde mal caberia um terço delas. Imagine o vômito, a carne viva, os piolhos em profusão, os mortos caídos, os agonizantes apodrecidos. Imagine, se for capaz, a embriaguez vermelha das subidas na ponte, a rampa para subir, o sol negro no horizonte, a vertigem, o clarão do céu chapado sobre as ondas. Vinte, trinta milhões, deportados por dois séculos e mais. A usura, mais duradoura do que um apocalipse. Mas isso ainda não é nada (Glissant, 2021, p. 29-31).

Que duro refrão: “Mas isso ainda não é nada”!

Em 7 de setembro de 1822, com o mito do Grito da Independência às margens do Rio Ipiranga, aconteceu o fim do colonialismo brasileiro. Mas isso ainda não é nada. O colonialismo acabou, mas a colonialidade não. O que é colonialidade? É a permanência da mentalidade colonial em nosso meio, em nossas estruturas políticas, educacionais, econômicas, culturais, em nossas relações variadas, dentro de nós. A colonialidade é uma “matriz trans-histórica” que segue reproduzindo o colonialismo, são as correntes que o colonizador deixou presas em nós mesmo depois que ele foi embora.

Nesse sentido, todo o duro processo de colonização pelo qual nossos ancestrais passaram deixou profundas marcas no processo de formação cultural do povo brasileiro. O racismo é uma das mais cruéis dessas marcas de colonialidade cultural que carregamos, uma marca ainda muito viva e atuante. Não nos esqueçamos: mesmo depois que o Brasil deixou de ser colônia, ele não deixou de ser violentado pela sombra colonizadora. Mudou a forma, mas não mudou o espírito (Martí, 2007). Prova simples e direta disso é que a base de nossa economia continuou baseada na escravização. Oficialmente, a colônia virou império, mas, no seu litoral, não pararam de chegar os chamados “navios negreiros” até os inícios da década de 1850, e a abolição oficial da escravatura só foi acontecer, no ocaso do império, em 1888. Mas isso também ainda não é nada. A proibição oficial da escravatura, até hoje, não deu conta de impedir a persistência de processos de escravização ou análogos. Como dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade: “as leis não bastam; os lírios não nascem das leis” (1). Temos de seguir lutando.

Logo oficial do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 18: A promoção de igualdade étnico racial para a Agenda 2030. Fonte da imagem: Brenda Gomes / https://www.gov.br/secretariageral/pt-br/noticias/2024/setembro/conheca-a-logo-escolhida-para-ser-a-marca-oficial-do-ods-18.

É conhecida a ideia atribuída a Mandela de que ninguém nasce racista, mas aprende. Se isso é aprendido, também pode ser desaprendido. Neste sentido, é preciso compreender que somos diariamente educadas(os) para reproduzir atitudes racistas e machistas. Há uma pedagogia difusa nas estruturas sociais que naturaliza a inferiorização de pessoas por cor de pele e origem étnica. Denunciar essa realidade cultural é um imperativo educacional.

O racismo é uma marca presente em nosso meio de vários modos, alguns sutis, outros escancarados. Pode ser percebido, por exemplo, em expressões e termos carregados de históricos preconceitos raciais: criado mudo, denegrir, boçal, a coisa está preta, esclarecer, humor negro, meia tigela, lápis cor de pele, mercado negro, ovelha negra, cor do pecado, não sou das tuas nêgas, macumba não é de Deus, inveja branca, preto de alma branca, serviço de preto, programa de índio etc.

Embora seja necessário evitar o prescritivismo linguístico, levando em conta o dinamismo da língua e os usos concretos dos termos e não, simplesmente, dizer que quem os utiliza é taxativamente uma pessoa racista, banir de modo consciente tais palavras é um posicionamento político-educacional antirracista fundamental. A compreensão da raiz discriminatória de alguns termos e algumas expressões ajuda no processo de reeducação de nossos hábitos, dos significados que atribuímos às palavras no dia a dia e na tarefa de expansão de nossa consciência. A luta antirracista deve acontecer em todas as frentes.

Não devemos reduzir o racismo ao âmbito exclusivo da relação pessoal, mas, também, situá-lo como um grande problema de ordem social, institucional, estrutural. Quando uma pessoa é diretamente racista com a outra, isso assusta, de maneira mais efetiva, uma parcela considerável da população e até envolve, mais diretamente, investigações policiais e um julgamento jurídico contra a pessoa que praticou o racismo. Contudo, também precisamos nos sensibilizar para perceber onde o racismo se reproduz sem punição, de maneira “naturalizada”, normalizada, quase que imperceptível, que são nas estruturas cotidianas, em situações aparentemente “normais”, sutis, embora profundamente letais, pois nos fazem pensar e agir de maneira racista sem sequer percebermos. Essa é uma das razões pelas quais muitas pessoas afirmam não serem racistas, mesmo quando fazem algo que é tipicamente originado de um racismo difuso em nossa história social e no modo como nossas sociedades foram efetivamente estruturadas. Estejamos atentas(os)! O racismo pode ser percebido em hábitos mecanicamente repetidos e em atitudes veladas e banalizadas, e se multiplica em muitos outros exemplos: na estrutura social discriminatória por critérios fenotípicos; no número reduzido de discentes e docentes indígenas e negras(os) em universidades; em propagandas de emprego que pedem para quem se candidatar à vaga ter “boa aparência”; nos ataques à política de cotas raciais; em situações repetidas de escravização laboral etc.

Soma-se a isso o alto percentual de violência contra pessoas negras. Pesquisas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2022 e de 2024 mostram que 408.605 pessoas negras foram assassinadas no Brasil entre 2012 e 2021. Considerando o ano de 2021: 78 de cada 100 pessoas assassinadas eram negras; negras(os) foram 84,1% de mortos pelas polícias; 62% das vítimas de feminicídio eram mulheres negras; 67,5% da população prisional eram de pessoas negras. Já em 2024, das 44.127 mortes violentas intencionais registradas no país, 79% foram de pessoas negras, o equivalente a 34.860 vidas ceifadas. Das centenas de pessoas mortas na chacina de 28 de outubro de 2025, no Estado do Rio de Janeiro, quantas delas eram negras? Como nossa educação tem nos ensinado a lidar com esses fatos? Como está nosso letramento racial? Como vai nossa “afrobetização”? Afinal, o racismo é um problema também educacional.

Lembremo-nos de que a dinâmica socioclassificatória é típica do colonialismo e da colonialidade, tendo no racismo uma de suas facetas mais cruéis; a questão racial é básica na consolidação do sistema-mundo moderno/colonial. Isso não só constata o óbvio, mas oferece compreensão sobre a gênese e o funcionamento da prática racista, que precede o conceito de raça. Na verdade, a ideia de raça é uma criação do racismo para justificar-se, e este é parte típica da modernidade/colonialidade. Sim, o mito da racialização é fundamental para o nascimento da modernidade/colonialidade, e racismo, exploração capitalista, modernidade e colonialidade são intimamente ligados. Olhando para o Brasil, vemos como o racismo se destaca no processo de formação do país, que foi criado à custa da destruição eurocêntrica de pessoas negras e indígenas e do vilipêndio de suas culturas.

Deste modo, chegamos em outra problemática educacional: colocar culturas distintas em contato, em uma dinâmica multicultural (interculturalidade funcional), pouco ajuda a superar situações de racismo estrutural. Antes, contribui para que estruturas racistas se perpetuem, já que sua lógica não questiona o funcionalismo da sociedade moderna/colonial, mas forma novos quadros para servir ao lucro de poucos e impõe o consumismo como padrão irrefutável de vida.

Isso exige atenção às inúmeras estratégias mantenedoras do status quo opressor racista, que escondem sua face opressora para mantê-la, até mesmo permitindo algumas pequenas concessões socioeconômicas para disfarçar o pleno funcionamento da atual maquinaria produtora de colonialidades. O multiculturalismo neoliberal sabe bem como fazer isso.

Neste sentido, o foco da luta educativa decolonial não está em apenas oportunizar ocupações de lugares de poder dentro do sistema-mundo moderno/colonial por pessoas que foram historicamente excluídas deles, mas em, sobretudo, romper com sua lógica de funcionamento, para que uma perspectiva outra de relação humana e socioambiental surja e se estabeleça. Evidentemente, isso não se dá de uma hora para outra, e as pequenas insurgências assumem papel pedagógico preponderante nesse movimento de libertação, de produção de fissuras e de feridas fatais no âmago da estrutura colonial persistente. Mas não se deve perder de vista que o que se busca é o ferimento cada vez mais letal da modernidade/colonialidade.

A educação antirracista, em dinâmica decolonial/intercultural, não se contenta com a mera ocupação de espaços, mas exige que culturas, pessoas e corporalidades outras se insiram nas instituições com uma lógica outra de funcionamento e de fazimento educacional, produzindo uma pedagogia desnorteada (Messias, 2023). Isso é condição indispensável para que a superação da modernidade/colonialidade vá acontecendo. Se só a ocupação bastar, permanecerão situações de opressão acadêmica, abuso de autoridade e assédios diversos; a lógica do cientificismo moderno/colonial e seus estratagemas ideológicos e metodológicos se manterão para silenciar e enquadrar estudantes, pesquisadores(as) e docentes, que sempre terão que seguir “a regra do jogo” tradicionalmente (im)posto.

É preciso, então, cuidado para não trilhar o caminho determinado pelo próprio opressor e para não reproduzir suas lógicas opressoras, mas desenvolver um dinamismo que inicie um modo outro de relação intersubjetiva. Rita Segato (2021, p. 333) diz, por exemplo, que, “ao forçar o ‘enegrecimento’ da instituição acadêmica, estaremos tocando o músculo do braço ideológico que sustenta o andaime da colonialidade do poder, instigando o debate sobre o racismo que sustenta e reproduz essa ordem e suas estratégias de expropriação do Sul pelo Norte”. Nesse sentido, “não bastam as políticas inclusivas concebidas no Norte, nem a politização das identidades na perspectiva multicultural essencialista norte-americana, porque nelas não se leva em conta, ou melhor, se disfarça a existência de uma fronteira norte/sul”. É preciso desnortear. É preciso sulear.

Ora, em nossa época, já não se pode mais confiar ingenuamente na pretensão emancipatória do conhecimento racional e científico. Ele não emancipa por si só. Pessoas com profundo conhecimento acadêmico podem ser também opressoras de outras pessoas, inclusive utilizando do seu próprio academicismo para humilhar, subalternizar, assediar, ameaçar. O que está em jogo aqui não é negar todo o saber das ciências atuais nem promover uma eurofobia. Com o sistema-mundo moderno/colonial, a racionalidade cientí­fica trouxe, de fato, inúmeros desenvolvimentos técnicos, mas não se pode dizer que isso esteve sempre a serviço da dignidade humana de todas e cada uma das pessoas. Não dá para simplesmente reproduzir o mote iluminista de que “se a razão e a ciência guiarem a humanidade, fatalmente o progresso virá”. Que tipo de progresso? Para quem? A custa de quê? É preciso se perguntar. As grandes carnificinas globais do século XX, por exemplo, tiveram grande respaldo racional, científico e tecnológico, expressando o descompasso que existe entre o imaginário colonizador, as singulares expressões da humanidade e a natureza. Uma necessidade de atenção autocrítica é requerida, nesse sentido, para a educação contemporânea.

É importante levar em conta que a questão racial é quase um tabu ainda em muitos setores, atualmente, no Brasil, a começar pela educação formal. Aliás, o racismo já foi até justificado “cientificamente” entre nós, por meio de ideias – como as de Artur de Gobineau e Dom Pedro II – que desejavam promover uma espécie de “embranquecimento” da população brasileira e/ou de argumentos que reforçavam a ideia de que a colonização, na verdade, foi uma “missão civilizatória” para povos supostamente menos evoluídos que os europeus. Basta conhecer os pressupostos racistas da Antropologia Física Evolucionista, da Frenologia, do eugenismo e do chamado darwinismo social. Jessé Souza (2022) tem até mesmo chamado isso de “racismo científico”. Há até quem considere que “não existe racismo em nosso país”, e sempre têm aparecido teorias culturais que lidam com o tema de forma bastante questionável, como o famigerado “racismo reverso” ou, ainda, de que “não é preciso dia consciência negra, mas somente da consciência humana” ou mesmo a clássica noção de que há “democracia racial” entre nós. Essa noção, em especial, cuja tese endossa que haveria uma suposta “singularidade cultural” em nosso país, tem sido radicalmente criticada como romantização da dura formação histórica da(s) identidade(s) brasileira(s).

Como explica Edgar Morin (2012, p. 44-45), as “coisas do espírito”, por ele denominadas de “noosfera”, tais como “saberes, cren­ças, mitos, lendas, ideias”, são especialmente reproduzidas no espírito humano “através da educação”. Isso faz dela uma realidade pertencente ao mundo dos conhecimentos, das ideias-força – haja vista a própria educação ter se transformado também em uma idealização na contemporaneidade, como se tudo fosse “salvo” por meio dela – e, como tal, exige que seja considerada de modo crítico e complexo. Afinal, quando se diz que “a educação é o que salvará um país da decadência”, de que tipo de educação se está falando, a serviço de que, de quem, sustentada por qual ideário antropológico, epistemológico, sociológico, econômico e societário? É fundamental pensar que o universo das ideias e saberes também está aí com potencialidades contraditórias e, no caso da modernidade/colonialidade, como marcante instrumento de poder colonizador. Nossa história nos mostra que “as ideias têm potencialidades exterminadoras iguais às dos deuses mais cruéis” (Morin, 2012, p. 46). Há muitas necropolíticas caminhando de mãos dadas com necropeda­gogias e necrociências, naturalizando necrofilias.

Então, é preciso adjetivar as ideias, ter consciência de que tipo de educação estamos falando quando falamos que a educação é fundamental para nos libertar das amarras racistas. Não é qualquer tipo de educação que é uma educação antirracista.

Enfim, sem atenção a isso, o racismo e outras marcas de colonialidade cultural seguirão reproduzidos em nosso meio com múltiplas facetas, os modelos de sucesso construídos na base de muito racismo e machismo seguirão inspirando os objetivos (metas) e as práticas das pessoas. Sem atenção a isso, a educação antirracista, antimachista, anticlassista e antiaporofóbica não se sustenta. É, de fato, fundamental ocupar os lugares historicamente negados à maioria da população brasileira, mas com uma perspectiva outra que não aquela legitimada pela colonialidade cultural persistente. Sim, o racismo é um problema educacional e a sua superação requer um processo social de formação cada vez mais profundo e explicitamente antirracista, antimachista, desnorteado.


      Elvis Rezende Messias é filósofo, teólogo e mestre e doutor em Filosofia da Educação. É docente do Instituto Federal do Triângulo Mineiro, campus Patos de Minas, pesquisador do Grupo de Pesquisas e Estudos em Filosofia da Educação e, também, assessor do Movimento Fé e Política da Diocese da Campanha. Autor de várias obras, dentre as quais o livro Pedagogia desnorteada, pela Appris Editora, publicado em janeiro de 2026.

Nota

  1. “Nosso Tempo”, de A Rosa do Povo (1945). In: Carlos Drummond de Andrade. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003.

Referências

  • GLISSANT, Édouard. Poética da relação. Poética III. Tradução de Eduardo Jorge Oliveira e Marcela Vieira. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
  • MARTÍ, José. Nossa América. Organização de Danilo R. Streck. Ijuí: Unijuí, 2007.
  • MESSIAS, Elvis Rezende. Marcas de colonialidade cultural na formação filosófico-educacional brasileira. 2023, 348 f. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Nove de Julho: São Paulo, 2023.
  • MORIN, Edgar. O método 6: a humanidade da humanidade. 5. ed. Porto Alegre: Sulina, 2012.
  • SEGATO, Rita. Crítica da colonialidade em oito ensaios e uma antropologia por demanda. Tradução de Danielli Jatobá e Danú Gontijo. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
  • SOUZA, Jessé. Brasil dos humilhados: uma denúncia da ideologia elitista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2022.

Para saber mais

Para aprofundar o tema deste texto, consulte o livro mais recente do Professor Rezende:

  • Rezende Messias, Elvis (2026). Pedagogia Desnorteada: (De)colonialidade Cultural e Interculturalidade na Formação Filosófico-Educacional Brasileira. Curitiba: Appris Editora.