Entre memórias e gerações: a avosidade na contemporaneidade

No Dia Mundial dos Avós e dos Idosos apresentamos esta reflexão que destaca a riqueza das relações intergeracionais como um espaço de proteção, cuidado e fortalecimento dos vínculos entre pessoas e redes.
Segundo dados do IBGE, especialmente do Censo Demográfico de 2022, divulgado em 2023, o envelhecimento da população brasileira vem se intensificando nas últimas décadas, ampliando a presença de pessoas idosas na sociedade e transformando as relações familiares e intergeracionais. Associadas ao aumento da longevidade, às novas configurações familiares, à crescente inserção da mulher no mercado de trabalho e às mudanças nas dinâmicas de cuidado, essas transformações favoreceram uma convivência mais intensa entre avós e netos, convidando à reflexão sobre o lugar ocupado pelos avós nas famílias, especialmente no que se refere à transmissão de valores, memórias e experiências de vida.
Essa realidade também é apresentada na Carta do Papa Leão IV para o Dia mundial dos avós e dos Idosos (2026) sobre o sentido da presença dos idosos no mundo contemporâneo e da urgência de combater a solidão por meio da proximidade afetiva, recordando a fidelidade incondicional de Deus na velhice, a partir da inspiradora perícope bíblica: “Eu não te esquecerei” (cf. Is 49,15). Portanto, o aumento da longevidade humana constitui uma oportunidade para refletir sobre o significado da velhice e as potencialidades presentes na fragilidade humana.
O aumento da longevidade constitui uma oportunidade para refletir sobre as potencialidades presentes na fragilidade humana
Essa abordagem permite compreender os avós, como sujeitos ativos e a repensar seu lugar nas relações familiares contemporâneas. Se antes sua presença estava frequentemente associada ao cuidado ocasional ou ao apoio familiar, hoje ela se revela muito mais ampla, marcada pela construção de vínculos afetivos, pela partilha da vida e pela transmissão de experiências que ultrapassam o cotidiano e alcançam dimensões profundas da formação humana. Segundo Ecléa Bosi (1994, p. 63), a memória dos mais velhos constitui um patrimônio de vida e de sentido para as novas gerações.
Rabinovich, Azambuja e Neves (2022), defendem que essa diversidade de experiências contribuiu para a ampliação do próprio conceito de avosidade, compreendida hoje como avosidades, no plural, reconhecendo as múltiplas formas de viver esse vínculo nas diferentes realidades sociais, culturais e históricas.
É nesse contexto que se insere a reflexão proposta neste artigo, “Entre Memórias e Gerações: a avosidade na contemporaneidade”, ao destacar a riqueza das relações intergeracionais como espaço de acolhida, cuidado e fortalecimento dos vínculos entre avós e netos. O presente artigo caracteriza-se como uma pesquisa de abordagem qualitativa, desenvolvida por meio de revisão bibliográfica. O estudo fundamenta-se no diálogo entre livros, artigos científicos e documentos do Magistério da Igreja que abordam a avosidade, a família, a memória, a educação e as relações intergeracionais. A partir desses referenciais, buscou-se compreender o papel dos avós na transmissão de valores, experiências, saberes e vínculos afetivos, evidenciando sua contribuição para a formação humana e para o fortalecimento das relações familiares na contemporaneidade.
No cenário das relações entre avós e netos, especialmente no campo educativo, Ferrigno (2016), ao refletir sobre as novas e velhas gerações, afirma que educação e geração são indissociáveis, pois a transmissão de experiências entre as gerações assegura a continuidade da cultura humana (p.211).
É nessa relação de aprender e ensinar entre as gerações e, neste estudo, entre avós e netos, que ganha destaque a perspectiva da Abordagem Relacional Familiar do sociólogo Pierpaolo Donati. Dessa forma, em sua obra Falar a verdade é preciso: Avós na escola é bom?, Fonseca dos Santos (2025) dialoga com esse referencial teórico ao destacar que a família, “independentemente de suas configurações antigas ou modernas, é lugar original de aprendizagem e de educação” (p. 36).
A partir das reflexões de Donati (2011), compreende-se a família, mesmo em meio aos conflitos e às transformações sociais, como uma relação social plena, capaz de integrar as diversas dimensões da existência humana. Em contraposição às leituras que anunciam sua crise ou enfraquecimento, o autor defende que a família possui capacidade de renovação e permanência, adaptando-se às mudanças históricas sem perder sua função essencial nas relações humanas. Como sujeito social, ela se reorganiza continuamente em sua capacidade de se regenerar, vivendo “num permanente processo autopoiético” (DONATI, 2011, p. 31).
Nessa mesma perspectiva, Petrini (2011) sustenta que a família constitui uma instituição voltada para o futuro, pois, além de formar as novas gerações, promove valores e formas de convivência capazes de fortalecer as relações sociais (p. 33).
Não existe família perfeita, existem relações, experiências e laços de pertencimento construídos no cotidiano. A partir dessa compreensão, Fonseca dos Santos (2025) destaca que, na família, os sujeitos, enquanto agentes de um sistema adaptativo complexo, “forjam as próprias relações em constante ligação, feita de aproximação e de afastamento, de integração e de conflito, com as dinâmicas da sociedade mais ampla à qual pertencem” (DONATI, 2011, p. 111).
A ideia da família como espaço de relações e construção de sentidos aproxima-se também da reflexão apresentada na Exortação Apostólica Amoris Laetitia (2016), na qual o Papa Francisco afirma que “a família é responsável pela transmissão da vida e educação dos filhos. Portanto a escola não substitui a família; serve-lhe de complemento. Este é um princípio básico” (p. 75).
O estudo de Dias (2002), ao apresentar uma revisão de literatura acerca da influência dos avós nas dimensões familiar e social, reafirma a importância das relações intergeracionais, sobretudo entre avós e netos; evidencia que os avós são reconhecidos pelos netos como fontes de sabedoria, afeto e experiência, influenciando significativamente seu desenvolvimento humano. A autora ainda destaca os diversos fatores que influenciam essa relação, como idade, gênero, mediação dos pais, distância geográfica, trabalho e saúde dos avós, nível socioeducacional da família e situações de transformação ou crise familiar.
Dessa forma, em uma sociedade marcada pela fragilidade dos vínculos, a presença dos avós torna-se ainda mais significativa. Nesse sentido, as reflexões de Byung-Chul Han (2017) oferecem um importante horizonte interpretativo para compreender como a aceleração do tempo, a superficialidade dos vínculos e o desaparecimento dos rituais fragilizam a experiência comunitária e a transmissão da memória. Embora não seja o foco de sua obra, o autor permite compreender o papel dos avós como mediadores de experiências, valores e referências simbólicas.
Em uma sociedade marcada pela fragilidade dos vínculos, a presença dos avós torna-se ainda mais significativa
A Carta Encíclica Magnifica Humanitas destaca a dignidade e a centralidade da pessoa humana na era da Inteligência Artificial, refletindo que, imersos numa sociedade marcada pela aceleração do tempo e pela multiplicação das conexões digitais, permanece no ser humano uma necessidade essencial de proximidade, cuidado e redescoberta do valor da presença. Assim afirma o documento:
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Essa reflexão evidencia uma tensão presente na contemporaneidade: embora os avanços tecnológicos ampliem as possibilidades de comunicação, eles não substituem as relações construídas pela presença, e os avós representam espaços de continuidade, acolhimento e transmissão de experiências entre as gerações.
A relação entre avós e netos também encontra expressão na literatura, como retratada por Cecília Meireles no poema “A avó do menino”, presente na obra Isto ou aquilo (1964), ao apresentar uma relação marcada pelo afeto, pela alegria da convivência e pela cumplicidade entre avós e netos:
A avó vive só. Na casa da avó o galo liró faz “cocorocó!” A avó bate pão-de-ló E anda um vento-t-o-tó Na cortina de filó. A avó vive só. Mas se o neto meninó Mas se o neto Ricardó Mas se o neto travessó Vai à casa da avó, Os dois jogam dominó. |
A representação poética supracitada evidencia que a presença dos avós ultrapassa a dimensão funcional do cuidado, envolvendo acolhimento, amorosidade, brincadeira, escuta, prazer de conviver e partilha de experiências.
A intergeracionalidade, portanto, constitui um elemento fundamental para compreender a relação entre avós e netos. Conforme Ferrigno (2016), as relações entre gerações envolvem processos de transmissão, socialização, formação e aprendizagem, sendo a família um espaço privilegiado dessas trocas. Nesse sentido, a convivência entre diferentes gerações possibilita não apenas a transmissão de legados culturais e familiares, mas também a ressignificação de valores e experiências.
O termo “intergeracional” expressa as relações estabelecidas entre diferentes gerações, envolvendo vínculos que podem ocorrer tanto no âmbito familiar quanto em outros espaços sociais, como a escola e os grupos de convivência (SCULLER; COELHO; CUNHA; DIAS, 2019; SILVA et al., 2015). Embora essas relações possam envolver conflitos e diferenças, é justamente na convivência que se constroem e aprende possibilidades de diálogo, aprendizagem e fortalecimento dos vínculos.
Ramos (2012), afirma que a intergeracionalidade promove educação, respeito e solidariedade entre as gerações, possibilitando a valorização dos conhecimentos e experiências de cada grupo etário e contribuindo para a construção de atitudes positivas em relação à velhice.
Assim, a transmissão intergeracional constitui um processo contínuo de construção da memória, da identidade e do pertencimento. Tal compreensão aproxima-se das contribuições de Halbwachs (1990) sobre a memória coletiva, ao afirmar que as lembranças individuais são constituídas e preservadas no interior dos grupos sociais aos quais os sujeitos pertencem. A memória é construída nas relações, nas narrativas compartilhadas e nos referenciais simbólicos que sustentam a identidade dos grupos. Portanto, escrever sobre avosidades é celebrar os avós na sua relação com os netos, em especial, recordando que eles são referendados na tradição bíblica como aqueles que “mesmo na velhice darão frutos, permanecerão cheios de seiva e verdejantes” (Sl 92,15), capazes de transmitirem às novas gerações memórias simbólicas.
Maria das Graças Fonseca dos Santos. Religiosa da Congregação Irmãs Mercedárias Missionárias. Mestre em Família e Sociedade Contemporânea. Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional. Graduada em Pedagogia e Teologia. Coordenadora do Conselho Estadual da ANEC. Membro da Sociedade Brasileira de Cientistas Católicos-SBCC. Atualmente, é diretora do Colégio Nossa Senhora da Luz, em Salvador, Bahia.
Referências
- BÍBLIA, Português. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulinas Editora, 2003.
- BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
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- DONATI, Pierpaolo. Sociologia da família. São Paulo: Paulus, 2011.
- DIAS, Cristina Maria de Souza Brito. Avós e netos na família contemporânea, 2002.
- FERRIGNO, José Carlos. O conflito de gerações: atividades culturais e de lazer como estratégia de superação das diferenças intergeracionais. São Paulo: Sesc São Paulo, 2016.
- FONSECA DOS SANTOS, Maria das Graças. Falar a verdade é preciso: Avós na escola é bom? Curitiba: CRV. 2025.
- HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.
- HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
- MEIRELES, Cecília. A avó do menino. Isto ou aquilo. Editora Global, 1964.
- PAPA FRANCISCO. Amoris Laetitia: Exortação Apostólica Pós-sinodal sobre o amor na família. São Paulo: Paulus, 2016.
- PAPA LEÃO. Magnifica humanitas: Carta Encíclica. 2026.
- PETRINI, João Carlos. Família na abordagem Relacional de Pierpaolo Donati. In DONATI, Pierpaolo. Família no século XXI: abordagem relacional. São Paulo: Paulinas, 2008. 2011.
- RABINOVICH, Elaine Pedreira; SÁ, Sumaia Midlej Pimentel; LEAL, Teresa Cristina Merhy; SANTOS Joana D’Arc Silva (Orgs.). Envelhecimento & Espiritualidade. Coleção Envelhecimento e Vida Familiar. Curitiba: Editora CRV, 2022. AMOS, Natália; MARUJO, Maria Helena; BATISTA, Ana (org.). A voz dos avós: migrações, memória e património cultural. Coimbra: Gráfica de Coimbra; Prodignitate, 2012.
- SCHULER, Emily; LEESON, George W.; DIAS, Cristina Maria de Souza Brito. Um estudo de caso sobre o papel de bisavó no contexto brasileiro. In: AZAMBUJA, Rosa Maria da Motta; RABINOVICH, Elaine Pedreira; NEVES, Sinara Dantas (Org.). Envelhecimento & Avosidades. Curitiba: CRV, 2022. p. 79-90.
- SILVA, Diana Leia Alencar da. O Contar-se entre o “nós outros”: a identidade narrativa na circularidade de uma casa de farinha. In: BASTOS, Ana Cecília de Sousa; et al (Org.). A poética do encontro com Elaine Pedreira Rabinovich. Curitiba: Appris, 2023, p. 171-182.
- TRACHTENBERG, Paula. Transmissão psíquica entre gerações: a herança em psicanálise. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005.


