Quem cuida de quem cuida? Uma experiência formativa sobre BNCC, brincar, memória e o empoderamento da professora da Educação Infantil

O texto constitui uma autobiografia docente. Propõe novas formas de estar e sentir a profissão. Dito de outra forma, assim como Loris Malaguzzi escreveu As cem linguagens da criança, o relato de experiência provoca-nos a perceber as cem linguagens do professor. No fundo, comunica, como diz o Relatório Global sobre Professores (2025), que devemos “transformar a profissão”, avançar o ensino como vocação e profissão, tornando-o atraente para todos. Isso significa, melhorar a motivação dos professores, compreender o ensino como profissão colaborativa, onde a voz e a autonomia dos professores são chaves de cuidado e inovação.
| “Educar é tecer possibilidades. E nenhuma professora consegue tecer a infância de outras crianças se sua própria história permanecer invisível.” |
Há alguns anos percorro diferentes municípios brasileiros realizando formações continuadas com professores da Educação Infantil. Em cada rede de ensino encontro culturas, currículos e realidades distintas. No entanto, existe algo que permanece constante em praticamente todos os lugares por onde passo.
As salas são ocupadas, quase sempre, por mulheres. Mulheres que chegam cedo, organizam materiais, acolhem crianças, escutam famílias, administram conflitos, planejam experiências, registram aprendizagens e, quando o dia termina, continuam exercendo inúmeros outros papéis em suas próprias casas.
São professoras.
São pedagogas.
São cuidadoras.
São mediadoras.
São pesquisadoras da infância.
Mas nem sempre são reconhecidas pela sociedade na mesma proporção da complexidade do trabalho que realizam. Foi pensando nessas mulheres que nasceu uma formação cujo objetivo inicial parecia bastante técnico: compreender a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), os Direitos de Aprendizagem e a importância do brincar na Educação Infantil. O roteiro previa discutir currículo, Campos de experiência e estratégias pedagógicas. Entretanto, ao longo dos anos, percebi que nenhuma formação se transforma apenas pela qualidade dos conceitos apresentados.
Ela se transforma quando toca pessoas.
Naquele dia, antes mesmo de abrir a apresentação, fiz apenas uma pergunta.
- Do que você mais gostava de brincar quando era criança?
Por alguns segundos, ninguém respondeu.
Depois surgiram vozes tímidas.
— Amarelinha.
— Esconde-esconde.
— Cinco marias.
— Bola de gude.
— Pega-pega.
— Pé de lata.
As respostas começaram a despertar outras lembranças.
Uma professora contou sobre a rua onde cresceu.
Outra lembrou da avó que fazia bonecas de pano.
Outra falou da liberdade de brincar até anoitecer.
Pouco a pouco, a sala deixou de ser uma formação.
Transformou-se numa grande roda de memórias.
Os rostos mudaram.
Os sorrisos apareceram.
Os olhos brilhavam.
Naquele momento compreendi que, antes de falar sobre infância, era preciso permitir que aquelas mulheres reencontrassem a criança que um dia foram. Esse movimento não foi apenas emocional. Foi profundamente pedagógico.
A BNCC estabelece o brincar como um dos seis Direitos de Aprendizagem da Educação Infantil, juntamente com conviver, participar, explorar, expressar e conhecer-se. O documento reconhece que brincar constitui uma experiência fundamental para o desenvolvimento integral das crianças.
No entanto, existe uma diferença importante entre conhecer esse princípio e vivê-lo. Ao longo da formação costumo dizer que a criança não aprende apesar de brincar. Ela aprende brincando. Embora essa frase seja amplamente utilizada na Educação Infantil, sua compreensão encontra respaldo em autores como Lev Vygotsky, que demonstra que, durante o brincar, a criança atua além de seu comportamento habitual, criando possibilidades de desenvolvimento que ainda não seriam possíveis em outras situações.
No Brasil, Tizuko Morchida Kishimoto amplia essa compreensão ao defender o brincar como uma linguagem própria da infância e uma forma privilegiada de construção de conhecimentos, cultura e relações sociais. Foi justamente isso que começou a acontecer naquela sala. Enquanto recordavam suas brincadeiras, aquelas professoras também estavam aprendendo. Não aprendiam novos conteúdos. Aprendiam sobre si mesmas.
Depois desse primeiro momento, iniciamos a discussão sobre a diferença entre BNCC e currículo. Uma pergunta provocou o grupo:
- Se todas as escolas utilizam a BNCC, por que ensinam de maneiras tão diferentes?
A resposta parecia simples.
Porque a BNCC não é um currículo.
Ela define o que toda criança brasileira tem direito de aprender.
Mas não determina como isso deve acontecer.
Esse caminho é construído pelo currículo, pela escola e, sobretudo, pela professora, que interpreta o contexto, conhece sua turma e toma decisões pedagógicas diariamente. Foi nesse momento que outra reflexão surgiu. Talvez também estejamos formando professores como se existisse apenas uma maneira correta de ensinar. Mas não existe.
Existe intencionalidade.
Existe escuta.
Existe contexto.
Existe sensibilidade pedagógica.
Ensinar crianças pequenas exige muito mais do que executar atividades. Exige compreender o desenvolvimento infantil, observar, investigar, acolher, intervir e criar experiências significativas.
Cuidar, nesse contexto, não é uma ação menor.
- É uma escolha pedagógica.
- Cada história contada.
- Cada mão segurada.
- Cada conflito mediado.
- Cada brincadeira organizada.
- Cada pergunta acolhida.
- Tudo isso produz aprendizagem.
Infelizmente, ainda encontramos discursos que reduzem a Educação Infantil a um espaço de assistência, como se o cuidado estivesse separado da educação. Na realidade, cuidar e educar constituem uma única ação pedagógica. E isso exige uma professora altamente qualificada. Talvez por isso a profissão continue carregando um paradoxo. Embora seja uma das etapas mais decisivas do desenvolvimento humano, a Educação Infantil ainda luta pelo reconhecimento social compatível com a complexidade do trabalho realizado por suas profissionais. Valorizar essas mulheres significa reconhecer que o desenvolvimento de toda a sociedade começa exatamente no trabalho cotidiano que elas realizam com as crianças pequenas.
Na parte final da formação, distribuí pequenos retalhos de tecido.
Pedi apenas que cada participante completasse uma frase.
- “Se não tivesse medo, eu…”
O silêncio voltou a ocupar a sala.
Agora, porém, era um silêncio diferente.
Era um silêncio de coragem.
Algumas escreveram que gostariam de inovar mais.
Outras disseram que desejavam confiar na própria capacidade.
Algumas confessaram medo do julgamento.
Outras revelaram receio de errar.
Houve quem escrevesse simplesmente:
- Gostaria de acreditar mais em mim.
Os retalhos foram sendo unidos.
Nenhum era igual ao outro.
Cada pedaço possuía uma cor.
Uma textura.
Uma história.
Uma cicatriz.
Quando terminamos de costurá-los, uma grande colcha ocupava o centro da sala.
Naquele instante, ela deixou de ser apenas um objeto. Transformou-se numa metáfora da própria docência. A professora da Educação Infantil costura histórias todos os dias.
Costura vínculos.
Costura aprendizagens.
Costura autoestima.
Costura pertencimento.
Costura infâncias.
Mas raramente alguém pergunta quem costura a história dessas mulheres.
A Colcha de Retalhos nasceu exatamente para isso. Para lembrar que nenhuma professora é feita apenas de conhecimentos acadêmicos.
Ela também é feita de lembranças.
De afetos.
De medos.
De perdas.
De sonhos.
E nenhuma dessas experiências diminui sua potência. Ao contrário. São elas que tornam cada educadora única.
Quando a colcha ficou pronta, entreguei a cada participante uma pequena boneca artesanal. Algumas sorriram. Outras observaram com curiosidade. Então contei sua origem.
As Muñecas Quitapenas, conhecidas como Bonecas Quitapenas, pertencem à tradição maia, preservada principalmente na Guatemala. Segundo a tradição popular, antes de dormir, a pessoa conta à pequena boneca seus medos, tristezas ou preocupações e a coloca sob o travesseiro. Durante a noite, simbolicamente, ela leva embora esses pesos, permitindo que quem dorme desperte mais leve. A tradição, transmitida de geração em geração, representa muito mais do que uma crença: ela expressa a necessidade humana de compartilhar aquilo que nos aflige e de reconhecer que ninguém precisa carregar sozinho seus fardos.
Naquele momento, ninguém acreditava que uma pequena boneca resolveria os desafios da educação pública. Mas todas compreenderam o valor do símbolo. A Quitapenas passou a representar um gesto de cuidado dirigido justamente àquelas mulheres que, diariamente, cuidam de tantas outras pessoas.
Ela lembrava que a professora também pode descansar.
Também pode sentir medo.
Também pode pedir ajuda.
Também merece ser acolhida.
Porque quem cuida também precisa ser cuidado.
Ao final da formação, assistimos a um vídeo que falava sobre despedidas. Não era um vídeo sobre currículo. Nem sobre metodologia. Era um vídeo sobre humanidade.
Enquanto as imagens passavam, percebi que muitas professoras choravam discretamente. Talvez porque cada uma estivesse se despedindo de alguma coisa.
Da insegurança.
Da culpa.
Da ideia de que precisava dar conta de tudo.
Ou talvez estivessem apenas reencontrando a menina que, um dia, brincou de ser professora.
Quando encerramos o encontro, quase ninguém comentava sobre códigos da BNCC ou objetivos de aprendizagem.
Falavam sobre suas infâncias.
Sobre suas colegas.
Sobre a colcha.
Sobre a Quitapenas que levariam para casa.
Foi então que compreendi que a formação havia alcançado seu verdadeiro objetivo. Não porque as professoras haviam aprendido novos conceitos. Mas porque haviam voltado a acreditar na potência daquilo que já eram.
Empoderar a professora da Educação Infantil não significa dizer que ela precisa ser mais forte. Ela já é. Empoderá-la significa reconhecer publicamente o valor do seu trabalho, da sua formação, das suas escolhas pedagógicas e da sua capacidade de transformar vidas desde os primeiros anos de existência.
Significa lembrar que brincar não é perda de tempo. É produção de conhecimento.
Que cuidar não é uma tarefa secundária. É um ato pedagógico. E que ensinar crianças pequenas exige ciência, intencionalidade, sensibilidade e coragem.
Ao deixar aquela sala, compreendi que a BNCC continuava sendo importante. Mas agora ela havia encontrado…
Rostos.
Histórias.
Retalhos.
Bonecas.
Lágrimas.
Sorrisos.
Mulheres.
Porque nenhuma política pública ganha vida sozinha. São as professoras que, todos os dias, transformam um documento em experiência, um currículo em afeto e uma brincadeira em aprendizagem. Talvez seja esse o maior ensinamento daquela formação.
Antes de perguntarmos como cuidar das crianças, precisamos perguntar quem está cuidando de quem cuida delas. E talvez a resposta comece justamente quando olhamos para a professora da Educação Infantil não apenas como aquela que ensina a brincar, mas como uma mulher que, ao ser reconhecida, acolhida e fortalecida, torna-se ainda mais capaz de transformar a infância e, com ela, o futuro da nossa sociedade.
Joyce Falcão Borba. É licenciada em Pedagogia pelo Centro Universitário Assunção (UNIFAI), especialista em Psicopedagogia pela Universidade Metodista de São Paulo e em Liderança Organizacional pela Escola Conquer. Possui formação complementar em Educação Inclusiva (PUC-SP) e Liderança para Jovens Talentos (FGV). É assessora pedagógica da SM Educação, atuando na formação continuada de professores e gestores de redes públicas municipais, com foco na implementação da BNCC, inovação pedagógica, avaliação educacional e desenvolvimento humano.
Referências
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- KRAMER, Sonia. A política do pré-escolar no Brasil: a arte do disfarce. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2006.
- NÓVOA, António (Org.). Os professores e a sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1992.
- OLIVEIRA, Marta Kohl de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento: um processo sócio-histórico. São Paulo: Scipione, 1993.
- TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. 17. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
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- WINNICOTT, Donald Woods. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.


