O Dia Mundial da Mãe Terra: a educação pode ajudar a humanidade a alcançar a paz com o planeta

O Dia Internacional da Mãe Terra (22 de abril) foi instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2009. Na resolução 63/278 que aprovou a data, reconheceu “que a Terra e seus ecossistemas são o nosso lar, e convencida de que para alcançar um justo equilíbrio entre as necessidades econômicas, sociais e ambientais das gerações presentes e futuras, é necessário promover a harmonia com a natureza e a Terra”. A expressão Mãe Terra "demonstra a interdependência existente entre os seres humanos, as demais espécies vivas e o planeta que todos habitamos".
A Fundação SM concebe o cuidado como um desafio educativo. Em 2020, quando publicamos É o nosso momento, já dedicamos um capítulo para o “Aviso da Mãe Terra”, no qual um dos primeiros, e talvez atualmente, um dos avisos mais importantes é: Capacidade de atenção para perceber sinais (estamos preparados para ouvir e ver as mensagens que a natureza emite?). Hoje, acrescentaríamos uma pergunta anterior a essa: queremos ouvir e ver essas mensagens?
A Mãe Terra nos fala e não precisa escolher as palavras para nos dizer uma grande verdade: “A Natureza não precisa das pessoas, as pessoas precisam da Natureza”. O que essa frase diz à escola? Que reflexões nos provoca? Estamos dispostos a efetivar as mudanças que essas reflexões exigem?
Na busca por possíveis respostas, apoiemo-nos, inicialmente, nas reflexões do ativista indígena dos Direitos Humanos e dos Direitos da Natureza, Ailton Krenak. “Temos que ter a coragem de ouvir a terra”, afirma Krenak.
- Fomos, durante muito tempo, embalados com a história de que somos a humanidade. Enquanto isso – enquanto seu lobo não vem –, fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ela é uma coisa e nós, outra: a Terra e a humanidade. Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja Natureza. Tudo é Natureza. O cosmos é Natureza. Tudo em que eu consigo pensar é Natureza (Krenak, 2019, p. 16).
Krenak, primeiro indígena eleito membro da Academia Brasileira de Letras, em 2023, expressa uma questão central para ouvir a Terra: “Se a humanidade está, hoje, em uma posição indesejada, que encara a Natureza como recurso e perdeu a conexão com a Mãe Terra, como eram os comportamentos dos seres humanos que, de fato, tinham essa relação íntima com o espaço à sua volta?“
Em seu livro, Futuro ancestral, expressou o caminho para recuperar a atenção para ouvir a Terra:
- Os rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, são quem me sugerem que, se há futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já estava aqui (Krenak, 2022, p. 11).
O planeta Terra é a casa comum [1] na qual tudo está interligado, assim como acontece em nosso corpo. Nas relações que estabelecemos na casa pessoal (corpo) e com a casa comum (planeta), conectamos nossos valores transcendentes. Essa compreensão sustenta a noção de ecologia integral, comunicada pelo papa Francisco, em sua carta encíclica Laudato Si’ (2015), a qual trata do cuidado com a casa comum. Por esse motivo, o valor central da ecologia integral é o cuidado, atitude primordial para uma vida saudável e em harmonia com as pessoas, com os seres vivos e com o planeta em geral.
A ecologia integral evoca a consciência e a responsabilidade de cada pessoa que habita o planeta: consciência de suas possibilidades e responsabilidades pelo cuidado pessoal e coletivo, pois a casa é de todos e todas. Essa motivação fortalece o compromisso por uma educação integral pautada nos princípios do humanismo solidário (diálogo, esperança, inclusão e cooperação), nos valores da cidadania global (respeito, pertencimento e responsabilidade) e nas competências socioemocionais (harmonia entre o sentir, o pensar e o agir).
A figura a seguir sintetiza três dimensões basilares que englobam os desafios educativo-ecológicos necessários para o desenvolvimento de uma cidadania ecológica pautada no paradigma do cuidado.
Discutamos brevemente cada uma delas:
Coabitar
Expressa o sentido de pertença. Cultiva em nós a percepção de que estamos incluídos na Casa comum e de que somos parte dela. Nesse valor, destacamos dois aspectos:
- Motiva-nos a buscar soluções integrais que considerem as interações dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais.
- Motiva-nos a cuidar dos espaços comuns e a melhorar nosso sentido de pertença, a sensação de enraizamento, o sentimento de “estar em casa”, isto é, o cuidado com espaços que unem, relacionam e favorecem o reconhecimento do outro.
Coexistir
Expressa o sentido relacional. Recorda-nos de que somos relacionais e de que, na vida cotidiana, dependemos dessas relações e da ajuda mútua para a própria existência. Nesse valor, destacamos dois aspectos:
- Motiva-nos à interioridade, a perceber, sentir e agir convictos de que precisamos ter laços de pertença e convivência, necessários para termos qualidade de vida.
- Motiva-nos a valorizar o patrimônio histórico, artístico e cultural, considerando-os bens comuns, com especial atenção às culturas locais e aos povos originários, respeitando seus saberes e modos de viver.
Ser solidário
Expressa o sentido da amizade social e do bem comum. Pautando-se nos valores de liberdade, justiça e cultura de paz, provoca-nos a reconhecer o outro, principalmente aqueles que permanecem excluídos e anônimos. Nesse valor, destacamos dois aspectos:
- Motiva-nos a ter atitudes acolhedoras, necessárias para criar ambientes dignificantes, isto é, impulsiona o reconhecimento da dignidade e o apelo à solidariedade.
- Motiva-nos a ser responsáveis e justos com as futuras gerações, demonstrando preocupação pela orientação, pelo sentido e pelos valores que regem nossos projetos de vida pessoais e comuns, bem como nossa compreensão de desenvolvimento sustentável.
Esses três valores (coabitar, coexistir e ser solidário) expressam um compromisso educativo de educar para a vida, em uma perspectiva de diálogo intercultural, respeito à Casa comum e a todos os seres vivos. As motivações que sinalizam privilegiam o desenvolvimento de atitudes comprometidas com a ecologia integral e com a cidadania global.
Desse modo, a Ecologia integral sintoniza-se com as prerrogativas de aprendizagem dispostas pelo relatório da UNESCO (2022), que nos interpelou a reimaginar juntos nossos futuros, por meio de iniciativas que incluam a ética do cuidado, a reciprocidade e a solidariedade. Nesse sentido, os currículos devem possibilitar a compreensão de que estamos interconectados, de que coabitamos e de que afetamos e somos afetados, considerando os afetos como guias para a construção do conhecimento, os quais nos incentivam a aproximarmo-nos, a pensar e a mudar.
O relatório questiona-nos: Como podemos viver bem juntos em um planeta que está sob crescente estresse? e provoca-nos a construir ecossistemas educacionais saudáveis que conectem locais de aprendizagem naturais, construídos e virtuais. Esses ecossistemas reconhecem a biosfera como um espaço vital de aprendizagem, com o qual podemos aprender.
- Os currículos devem permitir reaprender como estamos interconectados com um planeta vivo e prejudicado e desaprender a arrogância humana que resultou na perda maciça da biodiversidade, na destruição de ecossistemas inteiros e na mudança climática irreversível. Podemos considerar os currículos “renaturalizados” como desenvolvendo uma conectividade profunda com o mundo natural e abraçando a biosfera como um espaço educacional (UNESCO, p. 64).
Para alcançar esse objetivo, precisamos reimaginar nossos currículos:
- Podemos reimaginar currículos para incluir diálogos intergeracionais em torno de práticas de conhecimento que são relevantes para viver com o planeta (UNESCO, p. 64)
- As perspectivas feministas argumentam contra as premissas contraditórias que fundamentam grande parte do relacionamento abusivo e explorador da humanidade com a natureza (UNESCO, p. 65)
- O conhecimento e os ensinamentos indígenas fundamentados na terra e na água, bem como muitas cosmologias africanas e asiáticas, postulam relações nas quais os não humanos são entendidos não apenas como seres com seus próprios direitos, mas como educadores e professores com os quais os humanos podem aprender em relação (UNESCO, p. 110).
Dessa maneira, a Ecologia integral se mostra ser uma dimensão educativa para, assim como diz a filósofa Vinciane Despret, criar mundos mais habitáveis.
- […] há sem nenhuma dúvida grande quantidade de modos de ser do habitar, que multiplicam os mundos. […] Estou convencida […] que multiplicar os mundos pode tornar mais habitável o nosso. Criar mundos mais habitáveis seria então buscar como honrar as maneiras de habitar, inventariar o que os territórios implicam e criam como maneiras de ser, como maneiras de fazer. Isto é o que lhes falo aos investigadores. Falo habitar, mas deveria dizer coabitar, pois não há nenhuma maneira de habitar que não seja em princípio e ante tudo “coabitar” (Despret, 2022, p. 35-36).
Nessa travessia, não esqueçamos o que Danowski e Castro advertiram no ensaio Há mundo por vir?: “Falar no fim do mundo e falar na necessidade de imaginar, antes que um novo mundo em lugar deste nosso mundo presente, um novo povo; o povo que falta. Um povo que creia no mundo que deverá criar com o que de mundo nos deixamos a ele” (Danowski e Castro, 2014, p. 159).
Paulo Freire nos reconhecia como biófilos e afirmava que a ecologia tem de estar presente em qualquer prática educativa de caráter social, crítico e libertador, e deve pautar a nossa luta pelo “respeito à vida dos seres humanos, à vida nos outros animais, à vida dos pássaros, à vida dos rios e florestas” (Freire, 2000, p. 67).
Em 2023, na carta Laudate Deum, sobre a crise climática, o papa Francisco registrou o mesmo acento da necessidade de comunhão e de responsabilidade para com a Mãe Terra que há décadas ouvimos, mas que ainda temos muita dificuldade de colocá-la em prática.
- […] hoje somos obrigados a reconhecer que só é possível defender um “antropocentrismo situado”, ou seja, reconhecer que a vida humana não se pode compreender nem sustentar sem as outras criaturas (Francisco, 2023, n. 67).
Que neste 22 de abril, renovemos o nosso compromisso com o cuidado da Casa comum, não na lógica humana e sim, o mais próximo da lógica da natureza. Prestemos atenção, desaprendamos, percebamo-nos como cosmológicos e orgânicos, e recomecemos.
Humberto Herrera Contreras é Coordenador da Fundação SM no Brasil.
Nota
- O conceito de Lar Comum e outros relacionados à encíclica Laudato Si’ e ao Pacto Global para a Educação são descritos na seguinte obra bilíngue: Dicionário do Pacto Educacional Global (2021). Organizadores: Humberto Silvano Herrera Contreras, Ir. Jorge Luiz de Paula, SJ, Ir. Cláudia Chesini, ACSC. Curitiba: ANEC. Disponível neste link.
Referências
- Aranguren, L. (2020). Es nuestro momento. El paradigma del cuidado como desafío educativo. Madrid: Fundación SM.
- Krenak, A. (2019). Ideias para adiar o fim do mundo. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras.
- Krenak, A. (2022). Futuro ancestral. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
- Francisco, papa (2015). Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2015. Disponível neste link.
- UNESCO – Comissão Internacional sobre os Futuros da Educação (2022). Reimaginar nossos futuros juntos – Um novo contrato social para a educação. Madrid: Fundação SM. Disponível neste link.
- Despret, V. (2022). Habitar como un pájaro: modos de hacer y de pensar los territorios. 1 ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Cactus.
- Danowski, D.; Castro, E. (2014). Ha mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Florianópolis: Cultura e Barbárie: Instituto Socioambiental.
- Freire, P. (2000). Pedagogia da Indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Editora UNESCO.
- Francisco, papa (2023). Laudate Deum. Disponível neste link.


