Por uma versão recontada: falar sobre antirracismo entre as crianças a partir das histórias que não lhes são contadas

O texto indaga sobre o compromisso dos professores em recontar a história do Brasil, desde uma atitude de respeito e reparação. Destaca o papel político-pedagógico da escola na formação de estudantes antirracistas, que aprendam desde crianças sobre a história e a cultura afro-brasileira de forma honesta e justa.
Tinha sete anos apenas, Apenas sete anos, que sete anos! Não chegava nem a cinco! De repente umas vozes na rua Me gritaram negra! Negra! Negra! Negra! Negra Negra! Negra! Negra! Por acaso sou negra – me disse: Sim! Que coisa é ser negra? Negra! E eu não sabia a triste verdade que aquilo escondia. (…) Me gritaram negra, trecho do poema de Victoria Santa Cruz. |
O que é ser negro(a) em um país miscigenado, cultural e estruturalmente racista, onde, por essência, nega sua história e ainda estabelece a luta pela sobrevivência de vidas de crianças, homens e mulheres negras?
Entre os encontros que temos com o nosso passado, o que estamos deixando de contar as nossas crianças nas escolas? De onde compactuamos com a fidelidade de escrever a história de cada sujeito a partir do que já foi escrito?
Falamos tanto em desmanchar os nós dos preconceitos e esquecemos que a melhor forma de esticar a linha é tentar desenrolar a partir do caminho onde o nó se fez. Retomar o início é sempre uma bela forma de compreendê-lo.
A história de construção do nosso país não pode ser modificada, mas precisa ser recontada, e nós, educadores, temos um papel importante na construção de conceitos políticos, sociais e morais de uma criança. Nossa responsabilidade é para além da semana da Consciência Negra1 em nosso calendário escolar, é para os 200 dias letivos, para uma construção do sujeito.
É preciso falar sobre racismo desde a infância, incentivar o diálogo sobre o assunto, empoderando crianças negras e ensinando crianças não negras a serem antirracistas. E por que antirracistas? Porque não basta se denominar como não sendo racista e não ter conhecimento da sua história, porque não há a luta por igualdade, por equidade, sem compreensão da dívida moral e social de um país para com um povo, com uma raça. Sem conhecimento continuamos com discursos vazios.
A escola foi constituída por uma classe hegemônica para anular a diferença, em vez de valorizá-la, quando são nas diferenças e particularidades que se estabelecem o conhecimento para que possamos sublinhar as desigualdades existentes em uma sociedade.
Entendemos que o combate ao racismo já não pode mais ser visto como uma ação isolada a uma data, em comemoração à luta existencial, real e histórica de um povo. Tampouco ser contada a partir de uma abolição pelo suposto heroísmo da corte real portuguesa. Falar de racismo precisa ser um ato pedagógico e uma ação diária.
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Ainda afastados de nossas histórias, impedimos que crianças negras, desde muito pequenas, reconheçam-se, principalmente nas instituições públicas, como sujeitos pertencentes destes espaços. É preciso, por meio do questionamento e da escuta tão presente entre as crianças, estarmos abertos a este estreitamento necessário entre o que nos aproxima enquanto um só povo.
É preciso entender que, para falar de racismo, o professor precisa planejar seu espaço. A organização de materiais começa quando ampliamos o olhar para uma ambiência racial que permita a presença da diversidade cultural por dos brinquedos, dos objetos, das músicas, das cores, dos instrumentos pedagógicos capazes de produzir conhecimento sobre o assunto.
A literatura tem um grande papel nesta luta, quando rompe com a reprodução de obras nas quais personagens negros se apresentam em lugares de desmerecimento social frente aos demais personagens da história, quando não se apresentam em papeis inferiorizados, violentados ou ridicularizados.
Reproduzir a imagem do negro na história, falar de discriminação pela cor da pele, cabelo ou classe social não é discutir o racismo; é apresentar a criança algo que já lhe é comum, e estas discussões podem partir do lugar de fala de cada um.
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A literatura precisa apresentar o novo, trazer o conhecimento, contar a história e fazer o chamamento institucional com o olhar para o protagonismo negro. A LDB, com a lei 10.639, em 2003, já tornava obrigatório no currículo, o ensino da cultura negra na formação da sociedade nacional. A lei 11.648/2008 passou então a estabelecer a obrigatoriedade do ensino sobre a “história e culturas afro-brasileiras e indígenas”, na Educação Básica, nas escolas públicas e privadas no Brasil. Embora sendo uma vitória para o combate ao preconceito racial, ainda não conseguimos trazer, para nossas discussões, uma pluralidade racial que oferte para nossas crianças a representatividade necessária para se compreenderem como meninos e meninas negras crescendo com respeito a sua cultura e a sua história.
Precisamos entender que o racismo se apresenta pela fala e pelo silêncio, pelos atos que atravessam os muros das escolas, as barreiras do que nem sempre é dito e por anos são ignorados. Educar-se para o antirracismo é mais do que aprender a conviver com as questões raciais. É permitir politizar-se em meio as escolhas que fazemos para produzir conhecimento sobre o assunto.
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Talvez “acordar” seja o verbo, pois transita entre o conciliar-se com o que aqui está e o despertar diante do que se vê. Onde você, educador, enxerga-se no exercício de se perceber como parte da construção ética-social de uma criança? A linha que está ajudando a desatar entrelaça por você ou escapa entre seus dedos?
Será que, hoje, como educadores, podemos dizer que estamos contribuindo para construir, em nossas salas de aula, espaços dialógicos que atravessem as discussões raciais? Minha construção pessoal permite esta reflexão sobre a posição diante de um movimento antirracista ou ainda me denomino como não racista? As reflexões sobre o que nos constituíram até nossa escolha pela formação de pessoas são fundamentais e necessárias para pensarmos o lugar que ocupamos e a responsabilidade que temos diante disso.
Discussões antirracistas ainda precisam ser temas das formações de professores, das reuniões de pais, das rodas de conversa, dos piqueniques no parquinho e do jantar em família. Elas não podem ser silenciadas. É preciso acordá-las!
Joyce Elaine Cruz Machado. Pedagoga, Mestra em Educação pela UFF. Gestora de uma escola de Educação Infantil do Município de Macaé. No ano de 2024, foi coordenadora do NEAFRO (Núcleo de Estudos das Relações Étnico-Raciais), da Secretaria de Educação de Macaé, onde atuou na formação de gestores e professores e estudantes da Rede para uma Educação Antirracista.
Referências
- ADICHIE, Chimamand. O perigo de uma história única. TED, 2012. Disponível neste link. Acesso em: ago. 2026.
- RIBEIRO, Djamila. Pequeno Manual Antirracista. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
- SOUZA, Neusa. Tornar-se Negro – As vicissitudes da Identidade do Negro Brasileiro em Ascensão Social. Rio de Janeiro: Graal, 1983.


