Letramento literário por meio de uma rede social: potencialidades de ações do profissional bibliotecário

Considerando o importante papel exercido pela internet nos dias atuais e as novas formas de organização e compartilhamento de leitura, o texto analisa a rede social Skoob, descrevendo as mudanças de comportamento relacionadas ao leitor e a função do bibliotecário perante tais mudanças. A autora destaca que a rede Skoob desempenha importante papel entre os leitores modernos, o que permite concluir que o profissional bibliotecário deve refletir acerca de possíveis usos da plataforma para contribuir com o letramento digital e literário de seus usuários.
A leitura é um ato extremamente importante para o desenvolvimento de habilidades cognitivas em indivíduos. A biblioteca, amplamente reconhecida como guardadora do saber, possui papel fundamental, em conjunto com a leitura, neste processo.
Com o avanço no desenvolvimento da tecnologia, os bibliotecários precisaram se adaptar às novas necessidades de seus usuários inseridos no contexto digital. Para tanto, as bibliotecas passaram a acolher novas ferramentas e disponibilizá-las também de forma gratuita para a comunidade local. Dentre estas novas ferramentas, é possível citar o acesso à computadores, à redes Wi-fi, à periódicos eletrônicos, dentre outras ferramentas, dependendo de seu contexto. Os usuários das bibliotecas passaram a buscar a informação de um novo modo; e para que os centros de informação permaneçam relevantes e úteis, é preciso atentar-se às novas características destes usuários, para que seja possível satisfazer suas necessidades da melhor forma.
Desse modo, surgem também novas formas de organizar leituras e compartilhar experiências literárias. Dentro do âmbito da Biblioteconomia e Ciência da informação, é vital que o profissional bibliotecário esteja atento às constantes mudanças tecnológicas ligadas ao universo literário, para que assim, consiga atender as demandas de seus usuários com maior excelência.
O leitor digital
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A leitura fragmentada é uma característica marcante entre os leitores digitais; em geral, estes leitores possuem a tendência de ler de forma não sequencial, buscando as informações que desejam entre as diferentes partes do texto, além de procurarem outras referências digitais para complementação de seus interesses (Curcino, 2021).
Nesse contexto, também surge a curadoria digital; em outras palavras, a recomendação de livros e artigos com base nas preferências e no histórico do leitor. É possível notar que tais recomendações personalizadas fornecidas por plataformas e algoritmos são altamente valorizadas pelos leitores digitais.
Em contraste, nota-se que anteriormente os grupos literários eram restritos a encontros pessoais. Atualmente, com o surgimento destas novas tecnologias, muitos encontros de grupos de leitura passaram a ser feitos através da internet. Assim, é possível notar a grande influência destas novas tecnologias no contexto literário.
Assim, surgem os criadores de conteúdo literário. Tais criadores de conteúdo costumam ser denominados – e diferenciados – como Booktubers, Bookstagramers e Booktokers; e estão presentes no Youtube, Instagram e TikTok, respectivamente. Essas denominações são compostas por um padrão de palavras que une o termo da língua inglesa “book” (livro, em português) com o nome das plataformas de mídia social seguido do sufixo “er”.
Nota-se que todas as redes sociais possuem um ponto em comum: a possibilidade de interação sem a necessidade de deixar sua casa. Esses fatores são cruciais pois colaboram com a demonstração das mudanças significativas presentes no modo de leitura e compartilhamento dos leitores nos dias atuais.
Segundo a autora Lucilene Cordeiro da Silva Messias:
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Sendo assim, é importante observar a relevância das redes na busca dos usuários por novos títulos. Ainda que existam diferentes consequências geradas através das formas de leitura (em modo impresso ou digital), é notável que os profissionais que trabalham com livros – de forma especial, bibliotecários – devem buscar explorar as novas potencialidades, visando prestar um melhor serviço para seus usuários.
Nesse contexto, a competência informacional, ou information literacy, surge como uma habilidade essencial. A autora Elisabeth Adriana Dudziak caracteriza o termo information literacy da seguinte forma: “[…] o processo contínuo de internalização de fundamentos conceituais, atitudinais e de habilidades necessário à compreensão e interação permanente com o universo informacional e sua dinâmica, de modo a proporcionar um aprendizado ao longo da vida” (2003, p. 28).
De forma breve, é possível compreender que a competência informacional envolve mais do que a habilidade de acessar informações; refere-se à capacidade de refletir de maneira avaliativa sobre o conteúdo encontrado, analisando sua relevância e utilizando-o de forma frutífera para a construção do conhecimento. O processo de avaliação se aplica tanto a fontes tradicionais quanto digitais, e é importante ter em vista que o ambiente digital proporciona aos usuários um número consideravelmente maior de informações disponíveis do que aquelas existentes em ambientes informacionais físicos; portanto, é imprescindível reforçar a análise pessoal profunda e fundamentada para garantir a qualidade e a pertinência do material selecionado.
Plataformas de catalogação social
É possível notar que as redes sociais vêm se ampliando de maneira significativa nos últimos anos; com o intuito de atender demandas e interesses específicos, é possível notar uma ampla gama de novas plataformas. Dentro deste contexto, existem as chamadas redes sociais voltadas para a catalogação social. Essas redes sociais “constituem ambientes, onde indivíduos que partilham um interesse por livros podem construir as suas bibliotecas e interagir a propósito das obras que leram ou pretendem ler” (Leitão, 2009, p. 438).
Desse modo, é possível compreender que as plataformas de redes sociais voltadas à catalogação social são ferramentas digitais que permitem que os usuários registrem, organizem e compartilhem suas leituras; também permitem a interação com outros leitores. Estas redes funcionam como um espaço virtual onde os usuários podem registrar os livros que já leram, estão lendo ou pretendem ler, classificá-los com avaliações, e ainda, participar de comunidades e grupos literários para discutir obras e trocar recomendações. Sendo assim, é inegável que tais plataformas possuem uma relação direta com o serviço prestado pelo profissional bibliotecário em um centro de informação.
Desse modo, torna-se ainda mais claro o potencial uso das plataformas de catalogação social. Com facilidade no acesso e interesse pelos temas tratados, o usuário pode demonstrar suas visões de forma despretensiosa. Dentre tais plataformas voltadas à catalogação social, é possível citar o Goodreads, o Librarything e o Skoob; duas redes estrangeiras e uma brasileira, respectivamente.
A plataforma Skoob e o trabalho da pessoa bibliotecária
A plataforma Skoob foi fundada em janeiro de 2009, pelo desenvolvedor brasileiro Lindenberg Moreira. É a maior rede social criada para leitores no Brasil (Skoob, 2025). É interessante notar que o nome da plataforma, ao ser lido de trás para frente, se transforma na palavra “books“, palavra inglesa que significa “livros”.
Nessa rede, o usuário pode classificar livros em diferentes categorias, escrever resenhas, realizar a troca de livros, participar de sorteios, dentre outros. A plataforma desempenha um papel importante na formação de novos leitores e na valorização da leitura, promovendo o compartilhamento de vivências e o fortalecimento de laços em torno dos livros.
O Skoob oferece diversas funções em sua plataforma, como: o registro de livros lidos, em andamento, desejados; a escrita de resenhas e a avaliação destas leituras; a interação entre membros através de grupos e conversas privadas.
Tendo em vista as características da plataforma Skoob apresentadas, é possível elaborar diversas estratégias para que bibliotecários implementem práticas que incentivem maior interação e engajamento de seus usuários. É importante mencionar que essas ações devem ser adaptadas pelos bibliotecários às necessidades e aos interesses da comunidade local em que ele está inserido.
Em primeiro plano, recomenda-se que o bibliotecário realize a apresentação da plataforma Skoob para os usuários que ainda não a conhecem. Se possível, o profissional da informação pode auxiliar os usuários no reconhecimento da plataforma, demonstrando as funções disponíveis neste sistema e auxiliando-os caso necessário.
Caso a biblioteca receba e organize grupos de leitura, o bibliotecário pode sugerir que as leituras dos participantes sejam acompanhadas através do histórico de leitura presente no Skoob. Assim, os usuários podem ter acesso imediato, independentemente do local em que estejam, ao andamento de leitura de seus colegas. Além do acompanhamento, os usuários podem também utilizar a plataforma para trocar informações através de comentários, grupos e conversas privadas.
Nesse contexto, o profissional bibliotecário também pode buscar incentivar o usuário a avaliar e a escrever resenhas de livros, buscando auxiliar no processo de desenvolvimento de suas habilidades cognitivas – como pensamento crítico e raciocínio.
Tendo em vista os desafios literários promovidos pela plataforma Skoob, o bibliotecário pode incentivar a participação de seus usuários em desafios presentes na rede que os interessem; ou ainda, o profissional da informação pode inspirar-se em tais desafios e trazê-los de modo prático para a biblioteca. Assim, espera-se que os usuários sejam motivados a cumprirem seus objetivos pessoais de leitura, acompanhando seu progresso.
Com base nos livros em destaque e novos lançamentos presentes na plataforma, o bibliotecário pode planejar e executar eventos culturais que sejam interessantes aos seus usuários. Dessa forma, espera-se que haja um aumento no número de usuários engajados em ações temáticas promovidas pela biblioteca.
Por fim, sugere-se que os dados disponíveis na rede Skoob sejam também utilizados para aprimorar o acervo da biblioteca. A partir das preferências de leitura demonstradas pelos usuários, os bibliotecários podem realizar uma seleção de gêneros e títulos mais populares; após, o profissional pode buscar alinhar, na medida do possível, tais preferências, com novas aquisições de itens para a biblioteca. Assim, busca-se garantir que o acervo esteja atualizado e compatível com as expectativas e os gostos dos usuários. Cabe destacar que as redes de catalogação social passam pode diversas atualizações e mudanças o que implica que as pessoas bibliotecárias permaneçam atentas às transformações tecnológicas, alinhando suas estratégias de ação às possibilidades existentes nas plataformas no momento de seu uso.
Para sintetizar e expor as ferramentas do Skoob associadas às estratégias de incentivo à leitura e interação dos usuários:
À luz das sugestões de ações apresentadas, espera-se que haja um movimento contínuo e progressivo de adaptação das bibliotecas ao contexto contemporâneo digital, com profissionais bibliotecários sempre em busca de alinhar seus serviços às preferências e necessidades de seus usuários, tornando cada vez mais a biblioteca um espaço útil e agradável.
De maneira análoga, o profissional bibliotecário também deve permanecer se esforçando na busca por firmar a promoção da leitura como um hábito essencial para o desenvolvimento de uma sociedade informada, equilibrada e concentrada, conforme-lhes é atribuído no exercício de seu papel como mediadores culturais e educacionais. Outrossim, o intuito do profissional bibliotecário deve ser encontrar e promover o equilíbrio saudável entre as práticas tradicionais e modernas no contexto do acesso à informação.
Com tais medidas e objetivos claros em mente, compreende-se que a biblioteca permanecerá cumprindo de modo satisfatório seu antigo e fundamental papel na sociedade, oferecendo informações e serviços relevantes, verdadeiros e acessíveis para todos os usuários que os procurem.
Melissa Casagrande Morassi. É bibliotecária formada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Atua como bibliotecária escolar, desenvolvendo atividades de organização e gestão do acervo, atendimento aos usuários e ações culturais. Cursa pós-graduação em Branding: Gestão e Construção de Marcas na Universidade Presbiteriana Mackenzie, com estudos voltados à identidade, comunicação e relacionamento de marcas com seus públicos. Tem especial interesse em iniciativas de incentivo à leitura e na construção de experiências significativas no ambiente da biblioteca.
Referências
- CURCINO, L. A leitura em telas – um convite à reflexão em tempos pandêmicos: entrevista com Roger Chartier. Revista Brasileira de Alfabetização. [S. l.], n. 14, p. 115–137, 2021.
- DUDZIAK, E. Information Literacy: princípios, filosofia e prática. Ciência da Informação, Brasília, DF, v. 32, n. 1, p. 23-35, jan./jun. 2003.
- LEITÃO, P. Livros, leituras e redes sociais. In: Bibliotecas para a Vida II – Bibliotecas e Leitura, Lisboa, 2009, pp. 437-460.
- MESSIAS, L. C. DA S. Práticas de leitura e mediação literária na plataforma digital Skoob. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, 2019.
O texto é uma síntese do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da autora, A plataforma skoob e as potencialidades de ações do profissional bibliotecário, apresentado ao Curso de Biblioteconomia e Ciência da Informação, da Universidade Federal de São Carlos, no ano de 2025.


