Do clique ao vínculo: um olhar neuropsicopedagógico sobre a dependência digital na escola

07 outubro 2026
A escola é um espaço privilegiado para reeducar a atenção, regular emoções e reconstruir o vínculo presencial (imagem: iStock).

Este texto analisa a dependência digital em crianças e adolescentes a partir da Neuropsicopedagogia, com foco no cotidiano escolar. Parte-se da compreensão de que o uso problemático de telas é um fenômeno biopsicossocial, sustentado por um design digital que explora o sistema de recompensa de um cérebro ainda em maturação. A autora discute como o excesso digital afeta a tríade da funcionalidade humana, composta pelas funções cognitivas, conativas e executivas, e como esse desequilíbrio se manifesta em sala de aula como desatenção, impulsividade, baixa tolerância à frustração e fragilidade de vínculos. Ao final, propõe caminhos de intervenção em três níveis: prevenção pedagógica para toda a turma, acompanhamento dirigido aos estudantes em risco e encaminhamento articulado com família e rede de saúde.

Não é moda, é um problema social

Nem todo uso é vício, mas todo vício começa com um uso. Essa frase resume o desafio que chega hoje às escolas: distinguir o estudante que usa tecnologia daquele que já não consegue viver sem ela. Segundo a TIC Kids Online Brasil 2025, 92% dos brasileiros de 9 a 17 anos são usuários de internet, cerca de 24 milhões de crianças e adolescentes; 66% têm perfil próprio no Instagram e 57% no TikTok (CGI.BR, 2025). A mesma pesquisa registrou, pela primeira vez, que 53% dos entrevistados tiveram contato com divulgação de jogos de apostas e que 10% já usaram inteligência artificial generativa para conversar sobre suas emoções.

Esses números mostram que o celular deixou de ser ferramenta e passou a ocupar o lugar de entretenimento, pertencimento, validação social e, cada vez mais, regulação emocional. Não se trata de um desvio individual: estamos inseridos numa cultura digital cujo design é desenhado para prender a atenção, com rolagem infinita, recompensas imprevisíveis e algoritmos que aprendem o que nos mantém olhando. Haidt (2024) descreve esse processo como uma reconfiguração da infância (no original, Great Rewiring), em que a infância baseada no brincar foi substituída por uma infância baseada no celular.

O Brasil reconheceu a gravidade do tema. A Lei nº 15.100/2025 restringe o uso de celulares nas escolas de educação básica “com o objetivo de salvaguardar a saúde mental, física e psíquica das crianças e adolescentes” (art. 1º). A Lei nº 15.211/2025, conhecida como ECA Digital, passou a exigir das plataformas mecanismos de proteção para menores. Mas a lei tira o aparelho da mão; ela não reorganiza o cérebro que aprendeu a depender dele. É nesse ponto que a Neuropsicopedagogia tem algo a dizer.

O cérebro que aprende a depender

A dopamina é menos a molécula do prazer e mais a molécula da busca: ela nos move em direção ao que promete recompensa. Lembke (2022) explica que o cérebro processa prazer e dor como pratos de uma mesma balança; a cada estímulo intenso e repetido, o organismo compensa puxando o prato para o lado da dor, o que gera tolerância, necessidade de mais estímulo e mal-estar na ausência dele. Notificações, curtidas e vídeos curtos funcionam como recompensas imprevisíveis, justamente o padrão que mais reforça a repetição de um comportamento.

O risco é maior na infância e na adolescência porque o sistema límbico, ligado à recompensa e à emoção, amadurece antes do córtex pré-frontal, responsável pelo controle inibitório e pelo planejamento (Casey; Jones; Hare, 2008). Na prática, o adolescente sente a recompensa com intensidade adulta, mas ainda não dispõe do freio adulto. Desmurget (2021) acrescenta que o tempo de tela recreativo não ocupa um espaço vazio: ele substitui sono, conversa, leitura e brincar, que são justamente as experiências que alimentam o desenvolvimento cognitivo e da linguagem.

A Neuropsicopedagogia oferece uma lente que vai além do “tempo de tela”. Fonseca (2014) propõe que a aprendizagem depende da integração de três grupos de funções: cognitivas (perceber, reter, processar e expressar informação), conativas e executivas. Sobre as conativas, o autor afirma que elas “dizem respeito em termos simples à motivação, às emoções, ao temperamento e à personalidade do indivíduo” (Fonseca, 2014, p. 241). Para ele, “a cognição, a conação e a execução […] emanam […] da coatividade de milhões de neurônios” (Fonseca, 2014, p. 239), ou seja, não se aprende apenas com a razão, mas com o corpo, o desejo e a capacidade de autogoverno ao mesmo tempo.

As funções executivas são o elo mais vulnerável ao excesso digital. Diamond (2013, p. 135) as define como o que torna possível “brincar mentalmente com ideias; dar-se tempo para pensar antes de agir; enfrentar desafios novos e inesperados; resistir a tentações; e manter o foco”. A autora identifica três funções nucleares: controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva. O ambiente digital treina o oposto de cada uma: troca rápida em vez de foco, resposta imediata em vez de pausa, estímulo externo em vez de pensamento próprio.

Kimberly Young foi pioneira ao descrever, ainda em 1998, a dependência de internet como um quadro clínico com perda de controle, preocupação excessiva, tolerância e prejuízo nas relações (Young, 1998). Hoje, a Organização Mundial da Saúde reconhece o Transtorno de Jogo na CID-11 (código 6C51), caracterizado por “controle prejudicado sobre o jogo, prioridade crescente dada ao jogo sobre outras atividades […] e continuação ou escalada do jogo apesar da ocorrência de consequências negativas” (Who, 2019). O DSM-5-TR inclui o Transtorno de Jogo pela Internet na seção de condições que exigem mais estudos (APA, 2023). Para a escola, é útil pensar em um contínuo de quatro fases:

Fase

O que se observa

Papel da escola

Uso recreativo

Uso com hora para começar e terminar, sem prejuízo

Educação digital e cidadania

Uso excessivo

Tempo crescente, sono e tarefas começam a ceder

Observação e diálogo com a família

Vício

Perda de controle, irritabilidade sem o aparelho, mentiras sobre o uso

Plano de apoio individual e escuta

Dependência

Desregulação emocional, sintomas físicos, ansiedade, isolamento

Encaminhamento à rede de saúde

 

Como a dependência aparece na sala de aula?

O professor raramente vê o celular em excesso; ele vê seus efeitos. Lidos pela tríade de Fonseca (2014), os sinais se organizam assim:

Dimensão

Sinais observáveis na escola

Cognitiva

Atenção curta, leitura fragmentada, dificuldade de memorizar e de aprofundar um tema, preferência por respostas prontas

Conativa (emoção e motivação)

Irritabilidade ou ansiedade quando o aparelho é recolhido, tédio diante de tarefas lentas, desinteresse por atividades presenciais, sonolência por noites mal dormidas

Executiva

Impulsividade, dificuldade de esperar a vez, de planejar e de concluir tarefas, baixa tolerância à frustração

Relacional

Isolamento no recreio, conflitos que começam nos grupos de mensagem, exclusão por “panelinhas” online, comparação com padrões de influenciadores

 

Dois cuidados são essenciais. Primeiro, nenhum desses sinais isolado indica dependência; o que importa é o padrão, a persistência e o prejuízo na vida do estudante. Segundo, o uso excessivo pode imitar ou intensificar quadros como TDAH e ansiedade, o que exige avaliação profissional antes de qualquer rótulo. O olhar neuropsicopedagógico não diagnostica pelo comportamento, mas pergunta: que função essa tela está cumprindo na vida desta criança? Muitas vezes, a resposta é a falta de vínculo, de rotina ou de alguém que ajude a regular as emoções.

Caminhos de intervenção: o que a escola pode fazer?

Se a dependência desregula a tríade cognitiva, conativa e executiva, a intervenção escolar consiste em reeducá-la, em três níveis de intensidade. A escola não substitui o tratamento clínico, mas é o ambiente onde a criança passa boa parte do dia e onde novas conexões podem ser treinadas todos os dias.

Nível 1. Para toda a turma: prevenir e reeducar a atenção

  • Escola como porto seguro offline. A Lei nº 15.100/2025 já garante o recolhimento dos aparelhos; o passo seguinte é ocupar esse tempo com propostas que ofereçam outro tipo de recompensa: jogos de tabuleiro, esportes, rodas de conversa, leitura compartilhada.
  • Treino explícito das funções executivas. Atividades que exigem esperar a vez, planejar etapas, memorizar e mudar de estratégia, como jogos de regras, xadrez, música, teatro e projetos de longa duração. Diamond (2013) aponta que essas funções melhoram com prática e precisam ser desafiadas de forma progressiva.
  • Leitura profunda como contrapeso. Momentos diários de leitura em papel, sem interrupção, com tempo crescente, para reconstruir a atenção sustentada.
  • Educação socioemocional. Nomear emoções, reconhecer tédio e frustração como parte da vida e ensinar estratégias de autorregulação que não passem pela tela, como respiração, movimento e conversa.
  • Cidadania digital. Ensinar como funcionam algoritmos, publicidade e design persuasivo. Quando o estudante entende que o aplicativo foi feito para prendê-lo, ele deixa de ser apenas alvo e passa a ser crítico.

Nível 2. Para estudantes em risco: acompanhar de perto

  • Escuta qualificada. Uma conversa sem julgamento, conduzida pelo neuropsicopedagogo, orientador ou professor de referência, para entender o que a tela está regulando: solidão, ansiedade, conflitos em casa, dificuldade de aprendizagem.
  • Plano individual de apoio. Metas pequenas e visíveis (concluir uma tarefa sem interrupção, participar do recreio presencial), com acompanhamento semanal e reforço das conquistas. A lógica é oferecer ao cérebro recompensas reais, no lugar das artificiais.
  • Mediação pedagógica. Na perspectiva de Vygotsky (2007), o desenvolvimento acontece na relação com o outro. Um adulto que acompanha, propõe desafios ajustados e devolve sentido à tarefa atua como “freio externo” enquanto o freio interno amadurece.
  • Parceria com a família. Orientar sobre os limites recomendados pela Sociedade Brasileira de Pediatria (nenhuma tela antes dos 2 anos; até 1 hora por dia dos 2 aos 5; de 1 a 2 horas dos 6 aos 10; de 2 a 3 horas dos 11 aos 18, sem telas nas duas horas antes de dormir) (SBP, 2019), propor um contrato digital familiar e incentivar rotinas afetivas sem telas, como refeições e o momento antes de dormir.

Nível 3. Quando há sinais de dependência: encaminhar e articular

  • Encaminhamento à rede de saúde. Quando há perda de controle persistente, sintomas de abstinência, prejuízo escolar e sofrimento psíquico, a família deve ser orientada a buscar avaliação com psicólogo, psiquiatra infantojuvenil ou a rede pública, como os CAPSij. A própria Lei nº 15.100/2025 prevê que as redes de ensino capacitem educadores para detectar e abordar sinais de sofrimento psíquico.
  • Terapia Cognitivo-Comportamental. É a abordagem com maior base de evidências para a dependência de internet. Young (2011) propôs o modelo TCC-DI em três fases: modificação do comportamento de uso, reestruturação dos pensamentos que sustentam a dependência e terapia de redução de danos, voltada aos fatores associados, como ansiedade e conflitos familiares.
  • Escola e clínica no mesmo plano. Com autorização da família, a troca de informações entre escola e terapeuta permite que as metas trabalhadas no consultório sejam reforçadas em sala de aula, e vice-versa. Young e Abreu (2011) destacam que o tratamento de crianças e adolescentes precisa envolver a família, e a escola amplia esse círculo de cuidado.

Cuidar dos futuros exige presença

A dependência digital não é falta de disciplina nem modismo geracional. É a resposta previsível de um cérebro em formação a um ambiente desenhado para capturá-lo. Por isso, proibir o celular é necessário, mas não suficiente: é preciso devolver à criança aquilo que a tela ocupou, ou seja, o brincar, o silêncio, a conversa e o tédio que faz pensar.

O olhar neuropsicopedagógico desloca a pergunta de “quanto tempo ele fica no celular?” para “quais funções esse uso está enfraquecendo e o que podemos fortalecer no lugar?”. A escola tem, todos os dias, a chance de treinar atenção, autorregulação e vínculo. Quando faz isso de forma intencional, articulada com a família e com a rede de saúde, deixa de apenas reagir ao problema e passa a ser parte do tratamento.

O futuro não está apenas nas telas, mas na qualidade do tempo que dedicamos à construção de cérebros saudáveis, empáticos e livres.


Edmara Monteiro. Mestra em Ciências das Religiões, Psicanalista, Pedagoga e Psicopedagoga Institucional. Possui especializações na área de Neuropsicopedagogia e Educação Especial, em Coaching Educacional e em Pedagogia de Projetos.

 

 

Referências

  • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2023.
  • BRASIL. Lei nº 15.100, de 13 de janeiro de 2025. Dispõe sobre a utilização, por estudantes, de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais nos estabelecimentos públicos e privados de ensino da educação básica. Diário Oficial da União, Brasília, 2025.
  • BRASIL. Lei nº 15.211, de 17 de setembro de 2025. Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital). Diário Oficial da União, Brasília, 2025.
  • CASEY, B. J.; JONES, R. M.; HARE, T. A. The adolescent brain. Annals of the New York Academy of Sciences, v. 1124, p. 111-126, 2008.
  • COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL (CGI.BR). Pesquisa sobre o uso da internet por crianças e adolescentes no Brasil: TIC Kids Online Brasil 2025. Resumo executivo. São Paulo: CGI.br, 2025.
  • DESMURGET, M. A fábrica de cretinos digitais: os perigos das telas para nossas crianças. Belo Horizonte: Vestígio, 2021.
  • DIAMOND, A. Executive functions. Annual Review of Psychology, v. 64, p. 135-168, 2013.
  • FONSECA, V. Papel das funções cognitivas, conativas e executivas na aprendizagem: uma abordagem neuropsicopedagógica. Revista Psicopedagogia, v. 31, n. 96, p. 236-253, 2014.
  • HAIDT, J. A geração ansiosa: como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais. São Paulo: Companhia das Letras, 2024.
  • LEMBKE, A. Nação dopamina: por que o excesso de prazer está nos deixando infelizes e o que podemos fazer para mudar. Belo Horizonte: Vestígio, 2022.
  • SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA (SBP). Manual de Orientação: Menos telas, mais saúde. Grupo de Trabalho Saúde na Era Digital. Rio de Janeiro: SBP, 2019.
  • VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). International Classification of Diseases, 11th Revision (ICD-11): 6C51 Gaming disorder. Geneva: WHO, 2019.
  • YOUNG, K. S. Internet addiction: the emergence of a new clinical disorder. CyberPsychology & Behavior, v. 1, n. 3, p. 237-244, 1998.
  • YOUNG, K. S. CBT-IA: the first treatment model for internet addiction. Journal of Cognitive Psychotherapy, v. 25, n. 4, p. 304-312, 2011.
  • YOUNG, K. S.; ABREU, C. N. (org.). Dependência de internet: manual e guia de avaliação e tratamento. Porto Alegre: Artmed, 2011.