Educação, Justiça Socioambiental e Territórios Tradicionais

Conversa entre a equipe de comunicação do Museu do Horto Popular e Arlete Gomes dos Santos, analista de projetos da Fundação SM, para refletir sobre as implicações do relatório da UNESCO na realidade social e educacional das comunidades ribeirinhas, quilombolas e populares urbanas.
No dia 6 de junho, a equipe de comunicação do Museu do Horto Popular conversou com Arlete Gomes dos Santos, analista de projetos da Fundação SM, sobre o relatório da UNESCO “Reimaginando Nossos Futuros Juntos”, com o objetivo de refletir sobre a realidade social e educacional das comunidades ribeirinhas, quilombolas e populares urbanas. O relatório aborda os desafios socioambientais, a justiça social e a ecologia integral como elementos necessários para enfrentar a situação social vivenciada pela comunidade do Horto diante das ameaças da especulação imobiliária e seus esforços para fortalecer a identidade e o senso de pertencimento à comunidade.
O Museu do Horto Popular surgiu de um processo de mobilização e organização comunitária dentro da própria comunidade do Horto, em 2 de abril de 2022. Sua missão é contar a história dos moradores da comunidade e a importância do Horto para o desenvolvimento do Rio de Janeiro. O museu tem como objetivo preservar uma memória que abrange mais de 200 anos e contribuir para a luta dos moradores pela continuidade de sua presença em sua comunidade. O museu está localizado na Rua Pacheco Leão, 1235, Caxinguelê, no bairro Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Entre as fontes de seu acervo está o livro “Raízes Ancestrais”, que contém as narrativas dos habitantes históricos da região. Arlete Gomes, por sua vez, é educadora, pesquisadora e coordenadora de projetos socioeducativos voltados para a gestão e autonomia de comunidades territoriais tradicionais. Sua trajetória profissional está ligada ao trabalho com comunidades quilombolas, ribeirinhas, povos amazônicos e movimentos sociais, buscando fortalecer processos educativos comprometidos com a memória, a identidade cultural e os direitos territoriais. Atualmente, é analista de projetos sociais e educacionais na Fundação SM.
MDH: O documento da UNESCO ressalta que os futuros das pessoas dependem do futuro do planeta. Como reverter os males do avanço da tecnologia que caminha junto com os avanços do capital?
AGS: A tecnologia não é, por si só, a causa da crise socioambiental. O desafio reside na lógica econômica que frequentemente orienta sua produção e utilização. No relatório Reimaginar nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação, a UNESCO afirma que “os futuros interligados da humanidade e do planeta estão ameaçados” e que é necessária uma ação conjunta para construir sociedades mais justas e sustentáveis (UNESCO, 2022, p. 1).
O documento destaca que as transformações tecnológicas vêm ocorrendo em ritmo acelerado, mas nem sempre orientadas pela equidade, pela inclusão e pela participação democrática (UNESCO, 2022, p. 12-15). Nesse contexto, a educação assume papel estratégico ao formar sujeitos capazes de participar criticamente das decisões sobre ciência, tecnologia e desenvolvimento.
Reverter os impactos negativos exige que a inovação seja colocada a serviço da vida, da justiça social e da sustentabilidade. Isso implica fortalecer políticas públicas, ampliar a participação democrática, promover a responsabilidade socioambiental das empresas e construir uma ética do cuidado com as pessoas e com a natureza. Como propõe a UNESCO, é necessário um novo contrato social para a educação fundamentado na justiça social, econômica e ambiental (UNESCO, 2022, p. 151-153).
MDH: Nos seus estudos sobre os ribeirinhos e sua vivência quilombola, quais foram as dificuldades encontradas para construir uma comunidade sustentável?
AGS: Em meus estudos, compreendi que a sustentabilidade das comunidades ribeirinhas e quilombolas está profundamente relacionada à permanência nos territórios tradicionais. A identidade ribeirinha não se reduz ao espaço geográfico dos rios, mas constitui uma forma de sociabilidade construída historicamente por meio do trabalho, da cultura, da oralidade, dos conhecimentos tradicionais e das relações comunitárias.
Ao analisar a comunidade do Rio Guajará, em Afuá (PA), observei que os processos educativos, os saberes transmitidos entre gerações e a própria organização da vida coletiva estão profundamente vinculados ao território e às águas (SANTOS, 2025, p. 17-20). A pesquisa evidenciou que os conhecimentos tradicionais são produzidos e compartilhados nos espaços de convivência comunitária, como os trapiches, as casas das famílias e os momentos de trabalho coletivo. A identidade ribeirinha se constrói por meio daquilo que Oliveira e Mota Neto denominam “cultura da conversa”, em que os conhecimentos são transmitidos pela convivência, pela observação e pelas narrativas compartilhadas (SANTOS, 2025, p. 19).
Entretanto, a manutenção desse modo de vida enfrenta inúmeros desafios. Durante a pesquisa de campo, os moradores apontaram como problemas centrais a restrição de acesso às políticas públicas, especialmente a ausência de ensino médio na comunidade, a falta de formação técnica voltada ao manejo sustentável do açaí e o acesso limitado às novas tecnologias de trabalho (SANTOS, 2025, p. 18).
Além disso, a Amazônia continua submetida a fortes pressões decorrentes dos interesses econômicos associados ao agronegócio, à mineração, à exploração madeireira, à grilagem de terras e aos grandes projetos de desenvolvimento. A pesquisa demonstra que os conflitos territoriais são historicamente alimentados pela atuação de fazendeiros, grileiros, garimpeiros, empresas nacionais e internacionais e, muitas vezes, pelo próprio Estado, que favorece modelos econômicos voltados à exploração intensiva da natureza e dos territórios tradicionais (SANTOS, 2025, p. 26-29).
Dessa forma, a sustentabilidade não pode ser compreendida apenas como preservação ambiental. Ela envolve a garantia dos direitos territoriais, culturais, educacionais e sociais das populações tradicionais. Sustentar uma comunidade ribeirinha ou quilombola significa assegurar condições para que seus modos de vida, seus conhecimentos e suas formas próprias de relação com a natureza possam continuar existindo e sendo transmitidos às futuras gerações (SANTOS, 2025, p. 21-22).
MDH: Qual a importância da justiça social na educação?
AGS: A justiça social é um princípio fundamental para a construção de uma educação comprometida com a dignidade humana. A UNESCO defende que a educação do futuro deve estar ancorada nos direitos humanos, na equidade e na inclusão, constituindo um novo contrato social capaz de enfrentar desigualdades históricas (UNESCO, 2022, p. 3; p. 151-153).
Na mesma direção, a Encíclica Laudato Si’ afirma que não existem duas crises separadas uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise socioambiental (FRANCISCO, 2015, n. 139). Por isso, qualquer proposta educativa comprometida com a transformação social precisa enfrentar simultaneamente as desigualdades sociais e os processos de degradação ambiental.
A justiça social na educação significa garantir acesso, permanência e aprendizagem para todos, respeitando as diferenças culturais, territoriais e históricas. Significa reconhecer que comunidades quilombolas, ribeirinhas, indígenas e periféricas produzem conhecimentos legítimos e fundamentais para a construção de futuros sustentáveis. Uma educação orientada pela justiça social forma cidadãos capazes de participar da vida democrática, defender direitos e contribuir para o cuidado da Casa Comum.
MDH: Mesmo o planeta estando em perigo, o documento fala das economias verdes em processo. Como elas funcionam?
AGS: O documento afirma que os futuros da humanidade e do planeta são inseparáveis e que as atuais formas de produção e consumo estão pressionando os limites ecológicos da Terra (UNESCO, 2022, p. 1-3). Embora o relatório reconheça a necessidade de construir modelos econômicos mais sustentáveis e ambientalmente responsáveis, considero importante problematizar o conceito de “economia verde”. A crítica desenvolvida por autores do marxismo ecológico, especialmente Kohei Saito, contribui para compreender que muitas propostas de economia verde permanecem limitadas pelos próprios fundamentos do modo de produção capitalista.
A economia verde procura reduzir impactos ambientais por meio de tecnologias limpas, energias renováveis, créditos de carbono, bioeconomia e mecanismos de mercado. No entanto, a crítica marxista argumenta que essas iniciativas frequentemente mantêm intocada a lógica central do capitalismo: a necessidade permanente de acumulação, expansão dos mercados e crescimento econômico contínuo. Saito (2023), ao recuperar os estudos ecológicos tardios de Marx, demonstra que a crise ambiental não resulta apenas de escolhas tecnológicas inadequadas, mas de uma contradição estrutural entre a dinâmica de acumulação do capital e os limites ecológicos da natureza. O capitalismo depende da expansão constante da produção e do consumo, intensificando a exploração do trabalho humano e dos bens naturais.
Nessa perspectiva, o conceito de economia verde pode funcionar como uma nova etapa da mercantilização da natureza. Florestas, rios, biodiversidade, sementes e até mesmo a capacidade de absorção de carbono da atmosfera passam a ser convertidos em ativos econômicos negociáveis. Em vez de superar a lógica da exploração, corre-se o risco de atribuir novos valores de mercado à natureza, incorporando-a ainda mais profundamente aos circuitos de acumulação do capital.
Entretanto, a própria UNESCO alerta que as transformações necessárias não podem se limitar à inovação tecnológica ou ao crescimento econômico “verde”. É preciso garantir que essas mudanças estejam fundamentadas nos princípios da equidade, da solidariedade e da justiça social, evitando que os benefícios da transição ecológica sejam apropriados por grupos econômicos privilegiados (UNESCO, 2022, p. 12-15; p. 49-52).
Na Amazônia, por exemplo, projetos relacionados a créditos de carbono, bioeconomia e conservação ambiental podem gerar benefícios importantes. Contudo, também levantam questionamentos sobre o controle dos territórios, a apropriação dos conhecimentos tradicionais e a autonomia das comunidades locais. A questão central não é apenas a preservação ambiental, mas quem controla os processos de transição ecológica, quem se beneficia economicamente deles e quais interesses orientam sua implementação.
Por isso, o desafio não consiste apenas em tornar o capitalismo mais verde, mas em construir relações sociais, econômicas e ecológicas que respeitem os limites do planeta e coloquem a reprodução ampliada da vida acima da acumulação de capital. Nessa direção, uma economia somente poderá ser considerada verdadeiramente sustentável quando combinar proteção ambiental, distribuição justa dos benefícios econômicos, soberania dos povos sobre seus territórios e garantia dos direitos das populações historicamente vulnerabilizadas.
Como defende a UNESCO, a construção de futuros sustentáveis exige uma profunda transformação das relações entre sociedade, economia, conhecimento e natureza, baseada na responsabilidade compartilhada e no cuidado com a vida em todas as suas formas (UNESCO, 2022, p. 151-153). Contudo, a partir da crítica marxista ecológica, essa transformação demanda também o questionamento das estruturas econômicas que produzem, simultaneamente, desigualdade social e degradação ambiental.
MDH: Sabendo que o Horto é uma comunidade bicentenária e sofre com especulação imobiliária de diversos núcleos da burguesia, o que você enxerga de paralelo com as comunidades ribeirinhas e quilombolas?
AGS: O principal paralelo é a disputa pelo território. Tanto no Horto quanto nas comunidades ribeirinhas e quilombolas, o território não é apenas um espaço físico. Ele representa memória, identidade, pertencimento, cultura, relações comunitárias e modos específicos de produzir a vida.
Nos territórios tradicionais da Amazônia, os conflitos surgem diante do avanço do agronegócio, da mineração, da exploração madeireira e da grilagem de terras. No Horto, a pressão ocorre principalmente por meio da valorização imobiliária e dos interesses econômicos associados à ocupação urbana. Em ambos os casos, há uma tentativa de transformar territórios historicamente habitados em mercadorias.
O que une essas experiências é a resistência. São populações que lutam pelo direito de permanecer em seus territórios, preservar sua memória coletiva e garantir que as presentes e as futuras gerações possam continuar (re)produzindo seus modos de vida. Assim como os povos ribeirinhos e quilombolas defendem seus rios, florestas e territórios ancestrais, os moradores do Horto defendem sua história, seus vínculos comunitários e seu direito à cidade. A defesa desses territórios constitui uma expressão concreta de justiça socioambiental, pois protege não apenas pessoas e culturas, mas também formas alternativas de relação entre sociedade e natureza.
Referências
- FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulinas, 2015.
- SANTOS, Arlete Gomes dos. A formação do trabalhador ribeirinho no ciclo de produção do açaí: trabalho, educação e sociabilidade na comunidade do Rio Guajará, Afuá (PA). Dissertação (Mestrado em Educação). Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2025.
- SAITO, Kohei. O capital no antropoceno. São Paulo: Boitempo, 2022.
- UNESCO. Reimaginar nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação. Brasília: UNESCO; Fundación SM, 2022.


