Educação para as relações étnico-raciais: reimaginar futuros a partir da escola

20 outubro 2026
A Educação para as Relações Étnico-Raciais envolve o modo como compreendemos a educação, o conhecimento, o currículo, a cultura, o território, a formação docente, a inclusão e os futuros que queremos construir (imagem: Fundação SM Brasil, 2026).

A Educação para as Relações Étnico-Raciais é um desafio necessário para reimaginar os futuros da educação. No dia 05 de agosto de 2026, no webinar promovido pela Fundação SM, Alcielle dos Santos e Joyce Machado refletiram sobre racismo, currículo, representatividade, formação docente, território e inclusão, destacando o papel da escola na construção de uma sociedade mais justa, plural e democrática. O texto sintetiza as principais discussões que foram abordadas nesse diálogo das educadoras a partir do que o Relatório da Unesco Reimaginar nossos futuros juntos trata sobre o tema.

Um novo contrato social para a educação

Que educação queremos construir para o futuro? E que sociedade queremos ajudar a construir por meio dela?

 Ao refletir sobre o relatório da UNESCO, Alcielle chamou atenção dos participantes para a necessidade de compreender a educação como parte de um novo contrato social, baseado no princípio da solidariedade, na equidade e na responsabilidade compartilhada. Essa perspectiva implica reconhecer que a escola não está separada da sociedade. Logo, questões relacionadas às desigualdades raciais, sociais, econômicas e territoriais chegam diariamente às salas de aula e influenciam as aprendizagens, a permanência e o desenvolvimento dos estudantes. Por isso, não basta perguntar quem está na escola: è preciso perguntar que escola estamos construindo, quais referências ela apresenta e quais sujeitos ela reconhece.

  • “Transformar a educação não é algo que se faz sozinho. A gente precisa fazer juntos.” Alcielle dos Santos

A ideia dialoga com o próprio título do relatório: reimaginar nossos futuros juntos.

Para Alcielle, essa perspectiva também se relaciona com as reflexões de Edgar Morin e de Ailton Krenak sobre a necessidade de não ficarmos presos às certezas do presente e de manter aberta a possibilidade de olhar para o futuro. Viver o presente olhando para o futuro é, nesse sentido, um exercício de reimaginação. É neste horizonte que Alcielle situa a Educação para as Relações Étnico-Raciais.

Enfrentar desigualdades e discriminações

Entre os primeiros pontos destacados por Alcielle no documento da UNESCO está o enfrentamento das desigualdades e das discriminações. Sua reflexão parte da constatação de que o mundo está dividido entre pessoas que podem consumir e pessoas que servem quem consome. Para ela, essa desigualdade também atravessa a educação: há famílias que conseguem escolher a escola para seus filhos considerando diferentes fatores, enquanto outras ainda não conseguem acessar uma educação de qualidade ou são levadas a abandonar a escola pelas condições sociais que enfrentam.

A discussão sobre desigualdade leva Alcielle à história da colonização, da escravização e da institucionalização do racismo. Por isso, enfrentar o racismo exige também enfrentar as formas pelas quais determinados conhecimentos e sujeitos foram invisibilizados. Ela chama atenção para o apagamento das pessoas negras como produtoras de conhecimento e para a necessidade de reconhecer como determinados saberes foram historicamente invisibilizados.

  • “O que nós vivenciamos em relação ao racismo não pode passar sem ser sentido. E se é sentido, a gente precisa agir.” Alcielle dos Santos

A educação aparece, então, como espaço de sensibilização e transformação. Essa reflexão aproxima-se de Paulo Freire na perspectiva de uma educação que parte da realidade, problematiza o mundo e contribui para que os sujeitos possam atuar sobre ele.

A partir dessa perspectiva, Alcielle nos provoca: como construir uma educação que contribua para uma sociedade inclusiva, equitativa e socialmente justa? Para ela, essa sociedade precisa ser um sonho de todas as pessoas. Durante muito tempo, entretanto, a educação esteve associada a sonhos individualistas: conseguir um bom emprego, ganhar bem, ter sucesso e construir uma vida para si. Reimaginar a educação implica deslocar essa lógica. O sonho precisa deixar de ser apenas individual para incorporar uma dimensão coletiva: uma pessoa só pode estar plenamente bem quando sua comunidade também está bem.

Uma mudança cultural

A transformação proposta por Alcielle é, portanto, também uma mudança cultural. Ela utiliza diferentes situações do cotidiano para mostrar como a sociedade constrói distinções, desejos, bolhas e formas de separação. A educação, nesse contexto, precisa contribuir para construir mais pontes do que muros. Essa mudança cultural passa pela escola, mas não se limita a ela. Passa também pela representatividade, pela cultura, pela arte, pelas redes sociais e pelos diferentes espaços em que crianças, jovens e adultos constroem suas referências. Nesse aspecto Alcielle chama atenção para a necessidade de ocupar também as redes sociais com conteúdos que estimulem igualdade, equidade, colaboração e solidariedade.

Nesse ponto de análise, Alcielle reflete sobre a necessidade de pensar a escola para além da escola:

  • “A gente precisa pensar a escola para além da escola. E pensar a escola para além da escola precisa incluir a comunidade, precisa incluir o território.” Alcielle dos Santos

Reconhece, portanto, que a escola não consegue realizar sozinha a transformação social e por isso é importante considerar a família e o mundo do trabalho. A família é um dos primeiros espaços de formação. O mundo do trabalho, por sua vez, também precisa se ocupar da diversidade, da equidade e da justiça social. A escola está entre esses diferentes espaços e ela precisa dialogar com a totalidade social concreta, permanecendo atenta sobretudo às características socioeconômicas da comunidade onde a escola está inserida. Não existe uma educação antirracista descolada das experiências concretas dos estudantes e dos seus meios de convivência. E sabemos que o território também educa. As comunidades, as famílias, as manifestações culturais, as memórias, os modos de viver e os saberes tradicionais são fontes de conhecimento que podem entrar na escola e ampliar o repertório de crianças e jovens.

Currículo, BNCC e a escolha do que entra na escola

Em relação ao currículo, Alcielle reconhece que o Brasil já possui marcos legais importantes para a Educação para as Relações Étnico-Raciais, além de políticas educacionais que abrem espaço para a diversidade, a cultura, a cidadania e o desenvolvimento humano. Porém, a existência de leis não garante, por si só, uma mudança cultural. É necessário transformar os conhecimentos e as referências que chegam às salas de aula. Nesse sentido, são destacados autores, artistas, escritores, músicas e diferentes expressões culturais negras que podem fazer parte desse processo. Compreendendo, porém, uma questão central: Quem fazemos entrar na escola? E, sobretudo, quem faz essa escolha?

  • Quem faz curadoria de currículo na escola é o professor. A gente tem toda a porta aberta para começar esse trabalho. Os curadores somos nós. Alcielle dos Santos

Essa afirmação da Alcielle coloca o professor em um lugar de responsabilidade, mas também de possibilidades. O livro didático pode continuar presente, mas pode dialogar com outras referências. Uma aula pode começar com um texto e incorporar uma música, uma imagem, uma obra de arte, uma autora ou um autor que amplie a perspectiva apresentada. A curadoria passa, assim, a ser uma ação intencional.

Para Alcielle, uma educação antirracista também passa pela possibilidade de que as crianças cresçam reconhecendo a beleza humana convivendo com diferentes referências. A assessora defende uma educação em que a criança tenha contato com um repertório literário, musical e cultural diverso, de maneira que a diversidade étnico-racial não seja uma exceção, mas parte do cotidiano. Nesse sentido, a representatividade não é apenas uma imagem colocada em um material didático. É também uma experiência de convivência e reconhecimento. A criança precisa encontrar pessoas negras produzindo conhecimento, literatura, arte, ciência e cultura e ocupando diferentes profissões e espaços sociais.

Nesse aspecto, a dimensão curricular está diretamente relacionada à formação dos educadores. Alcielle destaca a formação como condição necessária para a implementação efetiva das políticas públicas. Não basta possuir legislação, diretrizes e currículos se não houver educadores preparados para transformar esses documentos em práticas. A formação continuada precisa, portanto, ser assumida como uma política educacional pelas instituições. E isso envolve também pensar a presença de profissionais negros nos espaços educativos. A pergunta feita por Alcielle é direta:

  • Como construir um currículo diverso em uma escola que permanece composta majoritariamente por profissionais não negros, em um país de maioria negra? 

Nesse sentido, a BNCC também precisa ser objeto de reflexão, tendo como pressuposto que essa discussão sobre currículo conduz, na etapa final do diálogo, a uma pergunta sobre a própria Base. Alcielle reconhece a importância do documento e dos espaços que ele oferece para trabalhar a Educação para as Relações Étnico-Raciais, mas também aponta que há espaço para avançar e pensar uma revisão do documento nessa perspectiva. A questão, portanto, não é simplesmente abandonar a BNCC, mas colocá-la em diálogo com os desafios da sociedade e com a necessidade de transformação da educação. Joyce concorda com essa provocação e amplia a reflexão ao questionar a centralidade que, muitas vezes, é atribuída ao documento.

Contudo, o documento pode ser utilizado como ponto de partida para repensar práticas, leis e caminhos educativos, considerando a sociedade que existe hoje, sua história e as marcas que permanecem presentes. Essa reflexão retoma uma das ideias centrais apresentadas por Alcielle: “Os curadores somos nós”. Se os documentos orientadores são referências importantes, eles não eliminam a responsabilidade dos educadores de fazer escolhas, contextualizar conteúdos e ampliar os repertórios oferecidos aos estudantes.

Portanto, para uma Educação para as Relações Étnico-Raciais, essa perspectiva é especialmente importante. Mais do que perguntar apenas o que está previsto nos documentos, é necessário perguntar o que efetivamente chega à sala de aula, quem aparece como produtor de conhecimento, quais histórias são contadas e quais referências ainda precisam ocupar espaço na escola. Assim, currículo, BNCC e formação docente aparecem como dimensões inseparáveis de uma mesma questão: que educação queremos construir e quais sujeitos, conhecimentos e experiências queremos reconhecer como parte dela?

A escola é território de muitos

  • “Quando a gente vai falar sobre educação das relações étnico-raciais, precisa ser uma roda pelo princípio da circularidade.” Joyce Machado

A partir de sua experiência como professora, pedagoga e gestora de uma escola pública, Joyce amplia a discussão sobre território. Para ela, a gestão escolar também precisa compreender a escola como espaço formativo e como território cultural. Sinalizando que “a escola é território de muitos”. Essa reflexão leva a compreendermos que a escola é feita de diferentes histórias, identidades, culturas, experiências e modos de compreender o mundo.

Para Joyce, falar de relações étnico-raciais exige pensar em roda, como princípio de circularidade, de escuta e de participação. Nesse sentido, o sentido da roda e da circularidade, neste caso, não é apenas uma imagem. Trata-se de uma forma de organizar as relações: ninguém está permanentemente no centro, todas as pessoas podem falar, todas precisam escutar e o conhecimento é construído na relação. Essa ideia levou Joyce a outra provocação importante: não é necessário começar tudo novamente. Existem conhecimentos, experiências, movimentos e pessoas que há muito tempo constroem caminhos para uma educação mais democrática e antirracista.

  • “A gente não precisa reinventar a roda, a gente precisa ouvir, estar dentro da roda e abri-la para poder dinamizar esses diálogos.” Joyce Machado

Entrar na roda significa reconhecer conhecimentos historicamente produzidos por intelectuais, movimentos sociais, comunidades negras e indígenas e tantos outros sujeitos que foram, muitas vezes, colocados à margem dos espaços tradicionais de produção do conhecimento. Assim, reimaginar os futuros significa recuperar conhecimentos que já existem e reconhecer sua legitimidade.

Na dimensão formativa docente, Joyce acrescenta uma importante reflexão sobre a identidade do próprio educador. Ela pergunta quem são os sujeitos que estão formando outros sujeitos e quais referências estão presentes em sua formação. “Como esse professor se identifica? Não com quem ele se identifica, mas como ele se identifica enquanto sujeito?”. Essa reflexão nos leva a pensar nas escolhas feitas na escola: os materiais, as literaturas, os filósofos, as artes, os mapas e as narrativas históricas. Compreendemos que formar um educador também significa ajudá-lo a compreender o lugar de onde olha e as escolhas que realiza.

Joyce reconhece que a escola pode ser um dos espaços mais importantes para abrir discussões sobre identidade, racismo, cultura e diversidade, mas sua atuação precisa ultrapassar os muros e suscitar perguntas: O que a sala de aula comunica? O que o currículo comunica? O que a didática comunica? Que identidades aparecem? Que possibilidades são apresentadas? Essas perguntas exigem que educadores e gestores estejam dispostos a repensar práticas.

Em relação à gestão e ao projeto político-pedagógico, Joyce reforça a necessidade da escola expressar aquilo que a comunidade pensa e deseja para aquele espaço: “Não se faz uma educação das relações étnico-raciais sem o coletivo. Não se faz uma educação que seja para todos, sem que todos estejam envolvidos.” Esse reconhecimento nos permite pensar que a Educação para as Relações Étnico-Raciais não é responsabilidade exclusiva do professor em sala de aula, mas uma construção coletiva.

A discussão envolve as diferentes dimensões que atravessam os sujeitos: raça, condições econômicas, aspectos físicos, fisiológicos e outras diferenças. Nesse sentido, a educação precisa deixar de tratar essas dimensões separadamente e avançar em direção a uma educação de equidade e qualidade.

Considerações finais

O Relatório oferece fundamentos importantes para pensar a Educação e as Relações Étnico-Raciais, ao reconhecer que a construção dos futuros da educação passa pelo enfrentamento das discriminações, incluindo as discriminações raciais, pela valorização da diversidade cultural, pela inclusão e pela transformação dos currículos e das instituições educativas (UNESCO, 2022, p. 48, 55 e 65). Esses fundamentos dialogam diretamente com o debate realizado pelas palestrantes Alcielle e Joyce, ao evidenciarem que a Educação para as Relações Étnico-Raciais não pode ser tratada como um tema complementar, ou como uma atividade pontual no calendário escolar. Ela envolve o modo como compreendemos a educação, o conhecimento, o currículo, a cultura, o território, a formação docente, a inclusão e os futuros que queremos construir. As duas falas se encontram num ponto essencial: a educação não se transforma de forma isolada; é preciso construí-la coletivamente.


Sobre as participantes

  • Alcielle dos Santos. Pedagoga, Doutora em Educação pela PUC/SP. Diretora de Educação do Instituto Iungo. Conselheira do CDESS – Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República. Atua na Baixada Santista e em âmbito nacional em Educação e Economia Solidária, integrando o Fórum de Economia Solidária da Baixada Santista, o Instituto Paul Singer e a Cooperativa de Professores Cipó Educação.
  • Joyce Machado. Pedagoga, Mestra em Educação pela UFF. Gestora de uma escola de Educação Infantil do Município de Macaé. Foi coordenadora do NEAFRO (Núcleo de Estudos das Relações Étnico-Raciais), da Secretaria de Educação de Macaé, no ano de 2024, responsável pela formação de gestores e professores e estudantes da Rede para uma Educação Antirracista.

 

Referências