O lugar e seus discursos: um relato de pesquisa e intervenção pedagógica

05 agosto 2026
Práticas pedagógicas baseadas na escuta, na produção discursiva e na valorização das experiências dos alunos fomentam uma aprendizagem mais crítica e significativa (imagem: iStock).

Este estudo, realizado na Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Creusa Brito Giorgis, localizada no bairro Ivo Ferronato, em Bagé, Rio Grande do Sul, surgiu do contato diário com alunos que, ao falarem sobre o bairro onde moravam, frequentemente reproduziam discursos marcados por desvalorização, preconceito e invisibilidade social. A pesquisa buscou compreender os processos de construção de sentido presentes nesses discursos e, ao mesmo tempo, desenvolver uma intervenção pedagógica que possibilitasse novas formas de interpretar o lugar onde vivem. 

Esta pesquisa nasceu do encontro entre minha trajetória como professora da escola pública, minha experiência como pesquisadora e o desejo de compreender como a linguagem pode contribuir para que estudantes reconheçam a si mesmos como sujeitos de suas histórias. Desenvolvida no Mestrado Profissional em Ensino de Línguas da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA) [1], o estudo teve como objetivo compreender de que forma o sujeito-aluno significa a si mesmo ao significar o lugar onde vive, tomando como campo de investigação a Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Creusa Brito Giorgis, localizada no Bairro Ivo Ferronato, em Bagé, Rio Grande do Sul, no período de dois anos (2024-2026). A pesquisa foi fundamentada na Análise do Discurso de linha materialista, especialmente nas contribuições de Michel Pêcheux e Eni Orlandi, compreendendo a linguagem como materialidade histórica e ideológica na qual os sujeitos produzem sentidos. 

A motivação para este trabalho surgiu da convivência cotidiana com estudantes que, ao falarem sobre o bairro onde moravam, frequentemente reproduziam discursos marcados pela desvalorização, pelo preconceito e pela invisibilidade social. Percebia-se que muitos dos sentidos produzidos sobre o Bairro Ivo Ferronato não eram construídos apenas a partir de suas experiências, mas atravessados por discursos historicamente estabilizados. Diante dessa realidade, a pesquisa buscou compreender os processos de significação presentes nesses dizeres e, ao mesmo tempo, construir uma intervenção pedagógica que possibilitasse novos gestos de interpretação sobre o lugar onde vivem. 

  • Os lugares discursivos são construídos pelo sujeito na sua relação com a língua e a história. Mas essa discursivização só acontece porque há uma determinação da formação social que institui determinados lugares, os quais podem e devem ser ocupados por sujeitos autorizados para tal. Por isso, este duplo efeito de determinação. O lugar social é efeito da prática discursiva, mas, ao mesmo tempo, o lugar discursivo também é efeito da prática social (Grigoletto, 2005, p. 7).

O primeiro movimento da pesquisa consistiu na construção do referencial teórico. Foram estudados os principais conceitos da Análise do Discurso, como sujeito, discurso, linguagem, memória discursiva, formação discursiva, paráfrase, polissemia, ideologia e efeitos de sentido. Paralelamente, buscou-se dialogar com estudos sobre território, territorialidade, espaço geográfico, lugar social e lugar discursivo, entendendo o bairro não apenas como um espaço físico, mas como um território constituído por memórias, disputas, afetos e processos de significação. Esses referenciais sustentaram toda a análise desenvolvida ao longo da investigação. 

Definida a base teórica, iniciou-se a organização da pesquisa de campo. O estudo assumiu uma abordagem qualitativa, ancorada no dispositivo teórico-analítico da Análise do Discurso. O corpus não foi previamente dado, mas construído ao longo da intervenção pedagógica realizada durante as aulas de Língua Portuguesa com uma turma de 9º ano do Ensino Fundamental. 

 A pesquisa foi organizada em quatro grandes eixos: elaboração de materiais didáticos, desenvolvimento de uma intervenção pedagógica, construção de um documentário produzido pelos estudantes e criação de um site educativo como produto final do Mestrado Profissional. 

A intervenção iniciou-se com atividades diagnósticas e rodas de conversa. Nesse momento, os estudantes foram convidados a falar livremente sobre o bairro, a escola, suas experiências de vida e os sentidos que atribuíam ao lugar onde moravam. Essas conversas permitiram identificar discursos recorrentes, marcas de pertencimento, silenciamentos e processos de identificação que posteriormente constituíram parte importante do corpus analítico. 

Na sequência, foram realizadas atividades de sensibilização envolvendo memória, identidade, pertencimento e território. Textos literários, reportagens, fotografias, mapas e diferentes gêneros discursivos serviram como disparadores para que os estudantes refletissem sobre as relações entre linguagem, história e espaço. Paralelamente, foram desenvolvidas atividades de leitura, escrita e oralidade articuladas aos conteúdos previstos para a disciplina de Língua Portuguesa, mostrando que o ensino da língua pode dialogar diretamente com a realidade vivida pelos alunos. 

Em seguida, iniciou-se uma etapa investigativa sobre o Bairro Ivo Ferronato. Os estudantes realizaram pesquisas históricas, levantamento de informações sobre a origem da comunidade, observação dos espaços do bairro e mapeamento dos lugares considerados significativos para suas histórias. Essa etapa possibilitou que o território deixasse de ser percebido apenas como cenário cotidiano para tornar-se objeto de investigação e reflexão. 

Posteriormente, os alunos elaboraram roteiros de entrevistas e definiram coletivamente quais histórias gostariam de registrar. Foram entrevistados moradores antigos, lideranças comunitárias, familiares e pessoas que participaram da construção do bairro. Os próprios estudantes conduziram as entrevistas, realizaram registros em áudio e vídeo, produziram fotografias e organizaram diferentes materiais que posteriormente integrariam o documentário. Durante esse processo, passaram da condição de ouvintes para a de pesquisadores, entrevistadores e produtores de conhecimento. 

Foto: Entrevista realizada em 2025, pelos estudantes do 9º ano, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Creusa Brito Giorgis, localizada no Bairro Ivo Ferronato, em Bagé, Rio Grande do Sul. Fonte: Acervo da autora.

Toda essa produção foi acompanhada por registros escritos, diários de atividades, transcrições, produções textuais e momentos de reflexão coletiva. Esses materiais, juntamente com as gravações das entrevistas, registros audiovisuais e observações realizadas durante a intervenção, constituíram o corpus da pesquisa, permitindo analisar os movimentos discursivos produzidos pelos estudantes ao longo do percurso. 

Após a organização do material audiovisual, iniciou-se a etapa de roteirização e edição do documentário Entre Ruas e Memórias. Os estudantes participaram da organização da narrativa audiovisual, selecionando entrevistas, imagens e cenas capazes de representar diferentes histórias do bairro. Mais do que um produto audiovisual, o documentário tornou-se um espaço de escuta, memória e produção de sentidos, permitindo que a própria comunidade se reconhecesse nas narrativas construídas pelos estudantes. 

Como produto educacional, foi desenvolvido também um site educativo, reunindo todo o percurso metodológico da intervenção. O ambiente virtual passou a disponibilizar os materiais didáticos produzidos, o documentário, sugestões de atividades para professores, referências sobre Análise do Discurso e a própria dissertação, ampliando o alcance social da pesquisa e fortalecendo a aproximação entre universidade, escola e comunidade. 

Concluída a intervenção, iniciou-se o movimento analítico propriamente dito. A partir do dispositivo teórico da Análise do Discurso, foram interpretadas as diferentes materialidades produzidas pelos estudantes, observando como os sentidos sobre o bairro se estabilizavam, deslocavam-se e eram ressignificados ao longo das atividades. A análise foi organizada em quatro movimentos principais: os primeiros gestos de significação do bairro; os processos de ressignificação do “ser daqui”; os processos de identificação com a posição-sujeito morador do bairro; e a constituição de novos processos de significação do Bairro Ivo Ferronato. 

As análises evidenciaram que, inicialmente, predominavam discursos associados à violência, ao abandono e às dificuldades sociais. Esses sentidos, muitas vezes reproduzidos pelos próprios estudantes, revelavam a força da memória discursiva e das formações ideológicas que historicamente significam comunidades periféricas. Entretanto, à medida que os estudantes ouviam outras histórias, entrevistavam moradores, pesquisavam a trajetória da comunidade e produziam o documentário, novos sentidos passaram a emergir, inclusive o desejo da maioria dos moradores e estudantes que o Bairro Ivo Ferronato possa ter acesso a uma escola de Ensino Médio.  

O bairro começou a ser significado também como espaço de solidariedade, trabalho, resistência, memória, cultura e pertencimento. Os estudantes passaram a reconhecer-se como parte dessa história e a compreender que suas experiências também possuem valor social e histórico. Não se tratou de apagar os problemas existentes, mas de ampliar as possibilidades de interpretação sobre o território e sobre si mesmos. 

A pesquisa demonstrou que a linguagem produz deslocamentos de sentidos quando cria condições para que os sujeitos ocupem novos lugares de enunciação. Ao assumirem o papel de pesquisadores, entrevistadores, autores e documentaristas, os estudantes produziram outros discursos sobre o bairro e, simultaneamente, produziram novos discursos sobre si próprios. 

Ao final da investigação, foi possível compreender que o objetivo inicial da pesquisa foi alcançado. Os processos de significação do Bairro Ivo Ferronato mostraram-se profundamente relacionados aos processos de constituição do sujeito-aluno. Ao significar o lugar onde vivem, os estudantes também significaram suas histórias, suas identidades e seus pertencimentos. A intervenção pedagógica evidenciou que práticas educativas fundamentadas na escuta, na produção de discursos e na valorização das experiências dos estudantes potencializam aprendizagens mais críticas e significativas. 

Mais do que produzir um documentário ou um site educativo, esta pesquisa buscou fortalecer vínculos entre universidade, escola e comunidade, reafirmando o compromisso do Mestrado Profissional em Ensino de Línguas com a transformação das práticas pedagógicas e com a valorização das vozes que, muitas vezes, permanecem silenciadas. Ao longo desse percurso, tornou-se evidente que compreender os discursos produzidos pelos estudantes significa também compreender os modos como a escola pode contribuir para que novas histórias sejam narradas e novos sentidos possam ser construídos sobre o lugar, sobre a educação e sobre os próprios sujeitos que nela se constituem. 

Dia do Lançamento (15/12/2025) do documentário Entre Ruas e Memórias, produzido pelos estudantes do 9º ano, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Creusa Brito Giorgis, localizada no Bairro Ivo Ferronato, em Bagé, Rio Grande do Sul. Fonte: Acervo da autora.

Rita de Cássia Patron Bandera. Formada no Curso Normal – Magistério e licenciada em Letras – Português, Espanhol e suas respectivas Literaturas (UNIPAMPA). Atuou durante três anos como missionária da Igreja Católica em Moçambique, experiência que contribuiu significativamente para sua formação humana, social e educativa. É Mestra em Letras pela Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA) e, atualmente, exerce a docência na Rede La Salle, em Pelotas, dedicando-se ao ensino e à formação integral dos estudantes. 

 

Nota

  1. Cf. Bandera, Rita de Cássia. O lugar e seus discursos: o processo de significação do bairro Ivo Ferronato pelo sujeito-aluno da escola pública. [Dissertação]. Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Mestrado Profissional do Ensino de Línguas da Universidade Federal do Pampa. Bagé, RS, 2026. Disponível em: Site Educativo – A DISSERTAÇÃO  

Referências  

  • ACHARD, Pierre; DAVALLON, Jean; DURAND, Jean-Louis; PÊCHEUX, Michel; ORLANDI, Eni P. Papel da memória. Tradução e introdução de José Horta Nunes. 2. ed. Campinas: Pontes Editores, 2007.
  • BORGES DOS ANJOS, Camila. O lugar. In: LEANDRO-FERREIRA, Maria Cristina (org.). Glossário de termos do discurso: edição ampliada. Campinas: Pontes, 2020. p. 193–202.
  • CAMPOS, Luciene Jung de; AQUATTI, Raquel. Sujeito. In: LEANDRO-FERREIRA, Maria Cristina (org.). Glossário de termos do discurso: edição ampliada. Campinas: Pontes, 2020. p. 281–286.
  • FERNANDES, Carolina; VINHAS, Luciana Iost. Da maquinaria ao dispositivo teórico-analítico: a problemática dos procedimentos metodológicos da Análise do Discurso. Linguagem em (Dis)curso – LemD, v. 19, n. 1, p. 133–151, jan./abr. 2019.
  • GRIGOLETTO, Evandra. Do lugar social ao lugar discursivo: o imbricamento de diferentes posições-sujeito. In: SEMINÁRIO DE ESTUDOS EM ANÁLISE DO DISCURSO, 2., 2005, Porto Alegre. Anais […]. Porto Alegre: UFRGS, 2005.
  • MELO, C. T. V. de. O documentário como gênero audiovisual. Comunicação & Informação, v. 5, n. 1/2, p. 25–40, 2013.
  • NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. São Paulo: Papirus, 2005.
  • LEANDRO-FERREIRA, Maria Cristina (org.). Glossário de termos do discurso: edição ampliada. Campinas: Pontes Editores, 2020.
  • ORLANDI, Eni P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 7. ed. Campinas, SP: Pontes, 2007.
  • ORLANDI, Eni P. A linguagem e seu funcionamento: as formas do discurso. 6. ed. Campinas: Pontes Editores, 2011.
  • PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Tradução de Eni Puccinelli Orlandi et al. 4. ed. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2009.
  • PÊCHEUX, Michel. O discurso: estrutura ou acontecimento. Tradução de Eni P. Orlandi. 5. ed. Campinas, SP: Pontes Editores, 2008.
  • PÊCHEUX, Michel. Análise automática do discurso. In: GADET, F.; HAK, T. (org.). Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Tradução de Eni Puccinelli Orlandi. 4. ed. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2010 [1969]. p. 59–158.