Educação para as relações étnico-raciais: reimaginar futuros a partir da escola

A Educação para as Relações Étnico-Raciais é um desafio necessário para reimaginar os futuros da educação. No dia 05 de agosto de 2026, no webinar promovido pela Fundação SM, Alcielle dos Santos e Joyce Machado refletiram sobre racismo, currículo, representatividade, formação docente, território e inclusão, destacando o papel da escola na construção de uma sociedade mais justa, plural e democrática. O texto sintetiza as principais discussões que foram abordadas nesse diálogo das educadoras a partir do que o Relatório da Unesco Reimaginar nossos futuros juntos trata sobre o tema.
Um novo contrato social para a educação
Que educação queremos construir para o futuro? E que sociedade queremos ajudar a construir por meio dela?
Ao refletir sobre o relatório da UNESCO, Alcielle chamou atenção dos participantes para a necessidade de compreender a educação como parte de um novo contrato social, baseado no princípio da solidariedade, na equidade e na responsabilidade compartilhada. Essa perspectiva implica reconhecer que a escola não está separada da sociedade. Logo, questões relacionadas às desigualdades raciais, sociais, econômicas e territoriais chegam diariamente às salas de aula e influenciam as aprendizagens, a permanência e o desenvolvimento dos estudantes. Por isso, não basta perguntar quem está na escola: è preciso perguntar que escola estamos construindo, quais referências ela apresenta e quais sujeitos ela reconhece.
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A ideia dialoga com o próprio título do relatório: reimaginar nossos futuros juntos.
Para Alcielle, essa perspectiva também se relaciona com as reflexões de Edgar Morin e de Ailton Krenak sobre a necessidade de não ficarmos presos às certezas do presente e de manter aberta a possibilidade de olhar para o futuro. Viver o presente olhando para o futuro é, nesse sentido, um exercício de reimaginação. É neste horizonte que Alcielle situa a Educação para as Relações Étnico-Raciais.
Enfrentar desigualdades e discriminações
Entre os primeiros pontos destacados por Alcielle no documento da UNESCO está o enfrentamento das desigualdades e das discriminações. Sua reflexão parte da constatação de que o mundo está dividido entre pessoas que podem consumir e pessoas que servem quem consome. Para ela, essa desigualdade também atravessa a educação: há famílias que conseguem escolher a escola para seus filhos considerando diferentes fatores, enquanto outras ainda não conseguem acessar uma educação de qualidade ou são levadas a abandonar a escola pelas condições sociais que enfrentam.
A discussão sobre desigualdade leva Alcielle à história da colonização, da escravização e da institucionalização do racismo. Por isso, enfrentar o racismo exige também enfrentar as formas pelas quais determinados conhecimentos e sujeitos foram invisibilizados. Ela chama atenção para o apagamento das pessoas negras como produtoras de conhecimento e para a necessidade de reconhecer como determinados saberes foram historicamente invisibilizados.
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A educação aparece, então, como espaço de sensibilização e transformação. Essa reflexão aproxima-se de Paulo Freire na perspectiva de uma educação que parte da realidade, problematiza o mundo e contribui para que os sujeitos possam atuar sobre ele.
A partir dessa perspectiva, Alcielle nos provoca: como construir uma educação que contribua para uma sociedade inclusiva, equitativa e socialmente justa? Para ela, essa sociedade precisa ser um sonho de todas as pessoas. Durante muito tempo, entretanto, a educação esteve associada a sonhos individualistas: conseguir um bom emprego, ganhar bem, ter sucesso e construir uma vida para si. Reimaginar a educação implica deslocar essa lógica. O sonho precisa deixar de ser apenas individual para incorporar uma dimensão coletiva: uma pessoa só pode estar plenamente bem quando sua comunidade também está bem.
Uma mudança cultural
A transformação proposta por Alcielle é, portanto, também uma mudança cultural. Ela utiliza diferentes situações do cotidiano para mostrar como a sociedade constrói distinções, desejos, bolhas e formas de separação. A educação, nesse contexto, precisa contribuir para construir mais pontes do que muros. Essa mudança cultural passa pela escola, mas não se limita a ela. Passa também pela representatividade, pela cultura, pela arte, pelas redes sociais e pelos diferentes espaços em que crianças, jovens e adultos constroem suas referências. Nesse aspecto Alcielle chama atenção para a necessidade de ocupar também as redes sociais com conteúdos que estimulem igualdade, equidade, colaboração e solidariedade.
Nesse ponto de análise, Alcielle reflete sobre a necessidade de pensar a escola para além da escola:
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Reconhece, portanto, que a escola não consegue realizar sozinha a transformação social e por isso é importante considerar a família e o mundo do trabalho. A família é um dos primeiros espaços de formação. O mundo do trabalho, por sua vez, também precisa se ocupar da diversidade, da equidade e da justiça social. A escola está entre esses diferentes espaços e ela precisa dialogar com a totalidade social concreta, permanecendo atenta sobretudo às características socioeconômicas da comunidade onde a escola está inserida. Não existe uma educação antirracista descolada das experiências concretas dos estudantes e dos seus meios de convivência. E sabemos que o território também educa. As comunidades, as famílias, as manifestações culturais, as memórias, os modos de viver e os saberes tradicionais são fontes de conhecimento que podem entrar na escola e ampliar o repertório de crianças e jovens.
Currículo, BNCC e a escolha do que entra na escola
Em relação ao currículo, Alcielle reconhece que o Brasil já possui marcos legais importantes para a Educação para as Relações Étnico-Raciais, além de políticas educacionais que abrem espaço para a diversidade, a cultura, a cidadania e o desenvolvimento humano. Porém, a existência de leis não garante, por si só, uma mudança cultural. É necessário transformar os conhecimentos e as referências que chegam às salas de aula. Nesse sentido, são destacados autores, artistas, escritores, músicas e diferentes expressões culturais negras que podem fazer parte desse processo. Compreendendo, porém, uma questão central: Quem fazemos entrar na escola? E, sobretudo, quem faz essa escolha?
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Essa afirmação da Alcielle coloca o professor em um lugar de responsabilidade, mas também de possibilidades. O livro didático pode continuar presente, mas pode dialogar com outras referências. Uma aula pode começar com um texto e incorporar uma música, uma imagem, uma obra de arte, uma autora ou um autor que amplie a perspectiva apresentada. A curadoria passa, assim, a ser uma ação intencional.
Para Alcielle, uma educação antirracista também passa pela possibilidade de que as crianças cresçam reconhecendo a beleza humana convivendo com diferentes referências. A assessora defende uma educação em que a criança tenha contato com um repertório literário, musical e cultural diverso, de maneira que a diversidade étnico-racial não seja uma exceção, mas parte do cotidiano. Nesse sentido, a representatividade não é apenas uma imagem colocada em um material didático. É também uma experiência de convivência e reconhecimento. A criança precisa encontrar pessoas negras produzindo conhecimento, literatura, arte, ciência e cultura e ocupando diferentes profissões e espaços sociais.
Nesse aspecto, a dimensão curricular está diretamente relacionada à formação dos educadores. Alcielle destaca a formação como condição necessária para a implementação efetiva das políticas públicas. Não basta possuir legislação, diretrizes e currículos se não houver educadores preparados para transformar esses documentos em práticas. A formação continuada precisa, portanto, ser assumida como uma política educacional pelas instituições. E isso envolve também pensar a presença de profissionais negros nos espaços educativos. A pergunta feita por Alcielle é direta:
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Nesse sentido, a BNCC também precisa ser objeto de reflexão, tendo como pressuposto que essa discussão sobre currículo conduz, na etapa final do diálogo, a uma pergunta sobre a própria Base. Alcielle reconhece a importância do documento e dos espaços que ele oferece para trabalhar a Educação para as Relações Étnico-Raciais, mas também aponta que há espaço para avançar e pensar uma revisão do documento nessa perspectiva. A questão, portanto, não é simplesmente abandonar a BNCC, mas colocá-la em diálogo com os desafios da sociedade e com a necessidade de transformação da educação. Joyce concorda com essa provocação e amplia a reflexão ao questionar a centralidade que, muitas vezes, é atribuída ao documento.
Contudo, o documento pode ser utilizado como ponto de partida para repensar práticas, leis e caminhos educativos, considerando a sociedade que existe hoje, sua história e as marcas que permanecem presentes. Essa reflexão retoma uma das ideias centrais apresentadas por Alcielle: “Os curadores somos nós”. Se os documentos orientadores são referências importantes, eles não eliminam a responsabilidade dos educadores de fazer escolhas, contextualizar conteúdos e ampliar os repertórios oferecidos aos estudantes.
Portanto, para uma Educação para as Relações Étnico-Raciais, essa perspectiva é especialmente importante. Mais do que perguntar apenas o que está previsto nos documentos, é necessário perguntar o que efetivamente chega à sala de aula, quem aparece como produtor de conhecimento, quais histórias são contadas e quais referências ainda precisam ocupar espaço na escola. Assim, currículo, BNCC e formação docente aparecem como dimensões inseparáveis de uma mesma questão: que educação queremos construir e quais sujeitos, conhecimentos e experiências queremos reconhecer como parte dela?
A escola é território de muitos
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A partir de sua experiência como professora, pedagoga e gestora de uma escola pública, Joyce amplia a discussão sobre território. Para ela, a gestão escolar também precisa compreender a escola como espaço formativo e como território cultural. Sinalizando que “a escola é território de muitos”. Essa reflexão leva a compreendermos que a escola é feita de diferentes histórias, identidades, culturas, experiências e modos de compreender o mundo.
Para Joyce, falar de relações étnico-raciais exige pensar em roda, como princípio de circularidade, de escuta e de participação. Nesse sentido, o sentido da roda e da circularidade, neste caso, não é apenas uma imagem. Trata-se de uma forma de organizar as relações: ninguém está permanentemente no centro, todas as pessoas podem falar, todas precisam escutar e o conhecimento é construído na relação. Essa ideia levou Joyce a outra provocação importante: não é necessário começar tudo novamente. Existem conhecimentos, experiências, movimentos e pessoas que há muito tempo constroem caminhos para uma educação mais democrática e antirracista.
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Entrar na roda significa reconhecer conhecimentos historicamente produzidos por intelectuais, movimentos sociais, comunidades negras e indígenas e tantos outros sujeitos que foram, muitas vezes, colocados à margem dos espaços tradicionais de produção do conhecimento. Assim, reimaginar os futuros significa recuperar conhecimentos que já existem e reconhecer sua legitimidade.
Na dimensão formativa docente, Joyce acrescenta uma importante reflexão sobre a identidade do próprio educador. Ela pergunta quem são os sujeitos que estão formando outros sujeitos e quais referências estão presentes em sua formação. “Como esse professor se identifica? Não com quem ele se identifica, mas como ele se identifica enquanto sujeito?”. Essa reflexão nos leva a pensar nas escolhas feitas na escola: os materiais, as literaturas, os filósofos, as artes, os mapas e as narrativas históricas. Compreendemos que formar um educador também significa ajudá-lo a compreender o lugar de onde olha e as escolhas que realiza.
Joyce reconhece que a escola pode ser um dos espaços mais importantes para abrir discussões sobre identidade, racismo, cultura e diversidade, mas sua atuação precisa ultrapassar os muros e suscitar perguntas: O que a sala de aula comunica? O que o currículo comunica? O que a didática comunica? Que identidades aparecem? Que possibilidades são apresentadas? Essas perguntas exigem que educadores e gestores estejam dispostos a repensar práticas.
Em relação à gestão e ao projeto político-pedagógico, Joyce reforça a necessidade da escola expressar aquilo que a comunidade pensa e deseja para aquele espaço: “Não se faz uma educação das relações étnico-raciais sem o coletivo. Não se faz uma educação que seja para todos, sem que todos estejam envolvidos.” Esse reconhecimento nos permite pensar que a Educação para as Relações Étnico-Raciais não é responsabilidade exclusiva do professor em sala de aula, mas uma construção coletiva.
A discussão envolve as diferentes dimensões que atravessam os sujeitos: raça, condições econômicas, aspectos físicos, fisiológicos e outras diferenças. Nesse sentido, a educação precisa deixar de tratar essas dimensões separadamente e avançar em direção a uma educação de equidade e qualidade.
Considerações finais
O Relatório oferece fundamentos importantes para pensar a Educação e as Relações Étnico-Raciais, ao reconhecer que a construção dos futuros da educação passa pelo enfrentamento das discriminações, incluindo as discriminações raciais, pela valorização da diversidade cultural, pela inclusão e pela transformação dos currículos e das instituições educativas (UNESCO, 2022, p. 48, 55 e 65). Esses fundamentos dialogam diretamente com o debate realizado pelas palestrantes Alcielle e Joyce, ao evidenciarem que a Educação para as Relações Étnico-Raciais não pode ser tratada como um tema complementar, ou como uma atividade pontual no calendário escolar. Ela envolve o modo como compreendemos a educação, o conhecimento, o currículo, a cultura, o território, a formação docente, a inclusão e os futuros que queremos construir. As duas falas se encontram num ponto essencial: a educação não se transforma de forma isolada; é preciso construí-la coletivamente.
Sobre as participantes
Alcielle dos Santos. Pedagoga, Doutora em Educação pela PUC/SP. Diretora de Educação do Instituto Iungo. Conselheira do CDESS – Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República. Atua na Baixada Santista e em âmbito nacional em Educação e Economia Solidária, integrando o Fórum de Economia Solidária da Baixada Santista, o Instituto Paul Singer e a Cooperativa de Professores Cipó Educação.
Joyce Machado. Pedagoga, Mestra em Educação pela UFF. Gestora de uma escola de Educação Infantil do Município de Macaé. Foi coordenadora do NEAFRO (Núcleo de Estudos das Relações Étnico-Raciais), da Secretaria de Educação de Macaé, no ano de 2024, responsável pela formação de gestores e professores e estudantes da Rede para uma Educação Antirracista.
Referências
- UNESCO (2022). Reimaginar nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação. Fundação SM. Disponível neste link.
- Webinar A Educação para as Relações Étnico-Raciais como desafio necessário para reimaginar nossos futuros-20260805_223034UTC-Meeting Recording.mp4.


