O caminho de Emaús como paradigma pedagógico

26 agosto 2026
Imagem produzida pelo autor, por meio de ChatGPT, para fins deste artigo, 2026.

O artigo analisa a narrativa bíblica dos "discípulos de Emaús" (Lc 24,13-35) desde um olhar educativo. Identifica nesse episódio um itinerário pedagógico que integra razão, afetividade e experiência, marcas constitutivas da Pedagogia de Jesus. De forma genuína, estabelece uma interlocução com as ideias pedagógicas de Paulo Freire e com os estudos sobre saberes docentes.  O texto aprofunda uma reflexão anterior do próprio autor, na qual analisou os fundamentos e as características da Pedagogia de Jesus 

O relato dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35) constitui uma das mais densas expressões da Pedagogia de Jesus, não apenas no plano teológico, mas também no campo pedagógico, na medida em que apresenta um processo formativo estruturado, progressivo e profundamente relacional. Longe de configurar-se como uma simples narrativa de aparição, o texto lucano revela um itinerário educativo no qual o sujeito é conduzido da crise à compreensão e desta à ação, evidenciando uma pedagogia que integra experiência, reflexão e transformação. 

Quando analisado à luz dos estudos contemporâneos sobre formação docente, especialmente a partir das contribuições de Tardif, Pimenta e Freire, o episódio de Emaús pode ser compreendido como paradigma de uma prática educativa que articula saberes plurais, historicidade da experiência e construção crítica do conhecimento. Conforme apontam Ridolfi et al. (2025), os saberes docentes são “plurais, socialmente situados e historicamente construídos”, sendo produzidos na articulação entre teoria, prática e experiência (Tardif, 2014). Essa compreensão encontra ressonância direta na dinâmica pedagógica desenvolvida por Jesus ao longo do caminho.

1. Aproximação e escuta: o reconhecimento do sujeito como ponto de partida

 O primeiro movimento pedagógico em Emaús é a aproximação. O texto afirma que “o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles” (Lc 24,15), indicando que o processo educativo se inaugura na relação e não na transmissão de conteúdos. Antes de ensinar, Jesus se insere na realidade concreta dos discípulos, marcada pela frustração e pela perda de sentido, evidenciando que o ato educativo se fundamenta no encontro e na partilha da experiência. 

Esse gesto revela uma concepção pedagógica que reconhece o educando como sujeito portador de saberes, ainda que estes se apresentem de forma fragmentada ou limitada. A pergunta de Jesus “o que é que vocês estão conversando pelo caminho?” (Lc 24,17) não busca simplesmente uma resposta informativa, mas explicitar a leitura de mundo dos discípulos, tornando-a objeto de reflexão. Nesse sentido, a pedagogia de Jesus aproxima-se da perspectiva freireana ao afirmar que ensinar exige saber escutar, isto é, reconhecer o outro como sujeito de palavra e de interpretação da realidade. Em Pedagogia do Oprimido, Freire sustenta que a educação autêntica se realiza no diálogo, compreendido como encontro entre sujeitos que buscam compreender o mundo e transformá-lo, o que pressupõe abertura, respeito e disponibilidade para o outro (Freire, 2002). 

Essa disponibilidade para o diálogo implica, ainda, a apreensão da realidade como ponto de partida do processo educativo. Em Emaús, a fala dos discípulos “nós esperávamos que fosse ele quem libertaria Israel” (Lc 24,21) expressa uma interpretação situada da experiência vivida, ainda que marcada pela decepção. Jesus não ignora essa leitura, mas a acolhe como elemento constitutivo do processo formativo. Tal postura dialoga com a concepção freireana de que o conhecimento se constrói a partir da leitura do mundo, sendo a realidade concreta o fundamento sobre o qual se desenvolve a aprendizagem. 

Do ponto de vista dos saberes docentes, esse momento pode ser compreendido como reconhecimento dos saberes experienciais e vivenciais. Tardif (2014) afirma que o professor mobiliza conhecimentos provenientes de sua trajetória, de sua prática e de suas relações, sendo esses saberes heterogêneos e historicamente construídos. Em Emaús, Jesus reconhece e valoriza esses saberes presentes nos discípulos, tomando-os como ponto de partida para o processo educativo. Pimenta (2021), por sua vez, reforça que a experiência constitui elemento central na formação, devendo ser tematizada e ressignificada no processo pedagógico. Assim, a escuta não se reduz a um procedimento metodológico inicial, mas configura-se como fundamento epistemológico do ato de educar, na medida em que reconhece o sujeito em sua realidade e o insere como protagonista do processo formativo. 

2. Interrogação e problematização: da experiência à consciência crítica

O segundo movimento da Pedagogia de Jesus é a problematização. Após escutar os discípulos, ele não confirma sua interpretação nem a substitui por uma resposta imediata. Ao contrário, provoca um deslocamento crítico, conduzindo-os a reinterpretar sua própria experiência. Trata-se de um movimento pedagógico que transforma a vivência em objeto de reflexão. Esse movimento encontra respaldo no próprio texto de Emaús, quando Jesus interpela os discípulos: “Ó insensatos e lentos de coração para crer tudo o que os profetas anunciaram! Não era necessário que o Cristo sofresse tudo isso para entrar em sua glória?” (Lc 24,25-26). Tal questionamento não apresenta uma resposta pronta, mas inaugura um processo de releitura da realidade, tensionando a compreensão inicial dos discípulos “nós esperávamos que fosse ele quem libertaria Israel” (Lc 24,21) e abrindo espaço para uma nova interpretação dos acontecimentos. 

Essa dinâmica encontra correspondência na pedagogia freiriana, sobretudo na concepção de educação problematizadora desenvolvida em Pedagogia do Oprimido. Para Freire, a prática educativa libertadora deve fazer da opressão e de suas causas objeto da reflexão dos oprimidos, de modo que dessa reflexão surja o engajamento na transformação da realidade (Freire, 2001). Nesse sentido, a problematização não é um recurso metodológico acessório, mas condição para a conscientização. Ao provocar os discípulos por meio de perguntas, Jesus não apenas ensina, mas cria as condições para que eles próprios avancem na compreensão do vivido. 

No episódio de Emaús, esse movimento se torna evidente na forma como Jesus conduz o diálogo. Ele não nega a experiência dos discípulos, mas a recoloca sob análise, provocando uma releitura dos acontecimentos. Tal dinâmica aproxima-se do que Freire compreende como passagem da consciência ingênua para a consciência crítica, a qual exige um permanente esforço de reflexão sobre suas condições concretas, pois é dessa reflexão que emerge a prática transformadora (Freire, 2001). Nessa perspectiva, o questionamento de Jesus não é retórico, mas formativo, pois mobiliza o sujeito a pensar sua própria realidade. 

Correia Júnior e Silva (2020) reforçam essa leitura ao afirmarem que a pedagogia de Jesus se estrutura em uma prática dialógica que provoca o sujeito à reflexão e à ressignificação de sua experiência, evidenciando uma dinâmica de aproximação com a pedagogia freiriana. Para os autores, o ensino de Jesus não se reduz à transmissão de conteúdos, mas constitui-se como processo que articula experiência, reflexão e transformação, numa lógica próxima à práxis educativa proposta por Freire. 

A problematização se insere, portanto, na lógica da práxis, entendida como unidade entre ação e reflexão. A pedagogia freireana afirma que não há transformação sem esse movimento dialético, estruturado na dinâmica ação-reflexão-ação, como caminho de superação da realidade opressora (Freire, 2001). Nesse horizonte, pensar a prática não é um exercício abstrato, mas um gesto profundamente formativo. 

Do ponto de vista dos saberes docentes, essa etapa evidencia que a experiência, por si só, não garante aprendizagem. É necessário submetê-la a um processo crítico de análise. Assim, a Pedagogia de Jesus não elimina a experiência dos sujeitos, mas a transforma em campo de investigação. Trata-se de uma educação que não responde antes de perguntar e que não ensina sem antes provocar. Ao problematizar, Jesus conduz os discípulos a uma apreensão mais profunda da realidade, inaugurando um caminho formativo que integra experiência, reflexão crítica e transformação da vida. 

3. Iluminação pela Palavra: articulação entre saberes e produção de sentido 

 O terceiro movimento pedagógico consiste na releitura da experiência à luz das Escrituras. O texto afirma que Jesus, “começando por Moisés e passando por todos os profetas, explicava-lhes o que constava a respeito dele em todas as Escrituras” (Lc 24,27). Esse momento não pode ser reduzido a uma simples exposição de conteúdos religiosos. Trata-se de uma mediação interpretativa que articula saberes distintos: de um lado, a Escritura como saber sistematizado; de outro, a experiência dos discípulos como saber vivido. O processo pedagógico consiste justamente na integração desses níveis, superando a fragmentação entre teoria e prática. 

Essa articulação corresponde ao que Tardif (2014) denomina pluralidade dos saberes docentes, que incluem saberes disciplinares, curriculares e experienciais, os quais precisam ser mobilizados de forma integrada para que o ensino produza sentido. Em Emaús, Jesus não apresenta a Escritura como conteúdo isolado, mas como chave interpretativa da realidade vivida pelos discípulos, permitindo-lhes reler os acontecimentos à luz de um horizonte mais amplo. Como indicam Correia Júnior e Silva (2020), a Pedagogia de Jesus se estrutura na relação entre experiência e interpretação, promovendo um processo formativo que conduz à ressignificação do vivido. 

Nesse ponto, a contribuição de Paulo Freire é decisiva. Para o autor, a leitura da palavra deve estar intrinsecamente vinculada à leitura do mundo, de modo que o conhecimento não se constitua como fim em si mesmo, mas como instrumento de compreensão e transformação da realidade (Freire, 2001). Nesse sentido, ensinar exige apreensão da realidade, isto é, a capacidade de partir do mundo concreto dos sujeitos para produzir conhecimento significativo. Em Emaús, essa dinâmica se torna evidente quando a explicação das Escrituras não substitui a experiência dos discípulos, mas a ilumina, possibilitando uma nova compreensão dos acontecimentos. 

Além disso, a pedagogia freiriana destaca que o ato educativo exige comprometimento e bom senso, na medida em que o educador deve respeitar o processo do educando e conduzi-lo à construção do sentido. Esse elemento aparece de forma expressiva no relato lucano, quando os discípulos afirmam: “não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32). O “arder do coração” indica que o conhecimento não se limita à compreensão intelectual, mas envolve a dimensão existencial, configurando aquilo que pode ser compreendido como devolução de sentido à experiência vivida. 

Pimenta (2021) reforça essa compreensão ao afirmar que os saberes do conhecimento precisam ser apropriados criticamente e articulados à prática para adquirir sentido formativo. Do mesmo modo, Costa (2021), ao analisar o episódio de Emaús, destaca que a Pedagogia de Jesus promove uma reinterpretação da realidade que transforma a percepção dos discípulos, conduzindo-os da desorientação à compreensão e, posteriormente, à ação. 

A Pedagogia de Jesus evidencia uma integração entre teoria e prática que antecipa debates contemporâneos sobre formação docente. Ao articular Escritura e experiência, conhecimento e vida, Jesus não apenas transmite saberes, mas produz sentido, possibilitando que os sujeitos compreendam sua realidade de forma mais profunda e se reposicionem diante dela. 

4. Experiência e reconhecimento: a corporeificação do conhecimento

 O reconhecimento de Jesus ocorre no gesto de partir o pão: “quando partiu o pão, seus olhos se abriram e o reconheceram” (Lc 24,31). Esse dado revela que a aprendizagem não se esgota no nível cognitivo, mas se realiza plenamente na experiência vivida. Aquilo que foi compreendido ao longo do caminho encontra, nesse gesto concreto, sua expressão mais profunda, indicando que o conhecimento, na Pedagogia de Jesus, é inseparável da vida. 

Essa dinâmica aproxima-se da reflexão de Paulo Freire, para quem ensinar exige a corporeificação das palavras pelo exemplo, isto é, a coerência entre o que se anuncia e o que se vive (Freire, 2001). O gesto de partir o pão constitui precisamente essa encarnação do saber: não se trata apenas de explicar a realidade, mas de vivê-la de modo significativo. Nessa perspectiva, a prática educativa exige que o conhecimento se torne ação concreta, capaz de produzir sentido e abrir novas possibilidades de compreensão e de existência. Como afirma Freire (1993), a prática vai despertar horizontes de possibilidades, indicando que é na ação que o saber se torna efetivamente formativo. 

Do ponto de vista dos saberes docentes, esse momento evidencia a integração entre saberes experienciais e vivenciais, uma vez que o processo formativo ultrapassa o domínio do conteúdo e alcança a dimensão da experiência. Assim, a Pedagogia de Jesus rompe com a lógica de uma aprendizagem puramente intelectual e afirma uma formação integral, na qual o sujeito não apenas compreende, mas vive aquilo que aprende, integrando conhecimento, experiência e sentido.

5. Transformação e práxis: da compreensão à missão

O processo pedagógico de Emaús culmina na transformação dos discípulos. O texto afirma que eles “levantaram-se na mesma hora e voltaram para Jerusalém” (Lc 24,33), indicando uma mudança radical de postura. Aquele que caminhava na fuga retorna à missão, evidenciando que o percurso formativo não se encerra na compreensão, mas se realiza plenamente na ação. 

Essa transformação confirma a perspectiva freiriana de que a educação autêntica conduz ao compromisso com a realidade. A conscientização, nesse sentido, não é um fim em si mesma, mas se desdobra em prática histórica, na qual o sujeito se reconhece como agente de transformação (Freire, 2001). Em diálogo com Pedagogia da Autonomia, esse movimento pode ser ainda aprofundado ao considerar que ensinar exige alegria e esperança, pois o ato educativo se orienta por uma confiança na possibilidade de transformação. A passagem dos discípulos da desolação à retomada do caminho revela exatamente essa dinâmica: o encontro com o Ressuscitado restitui o sentido e reacende a esperança, possibilitando uma nova inserção na realidade. 

Do mesmo modo, Freire (2001) afirma que ensinar exige a convicção de que a mudança é possível, princípio que se torna visível em Emaús quando os discípulos deixam uma postura de derrota para assumir uma atitude ativa diante da vida. Tal transformação não é apenas emocional, mas existencial, pois implica uma nova forma de compreender e agir no mundo. Além disso, a consciência do inacabamento, outro elemento central na pedagogia freireana, permite compreender que o processo formativo permanece aberto, sendo continuamente reconstruído na prática. Os discípulos não retornam a Jerusalém como sujeitos prontos, mas como sujeitos em caminho, marcados por uma experiência que inaugura novas possibilidades. 

Do ponto de vista da formação docente, essa etapa revela que o conhecimento só se legitima na prática. Ridolfi et al. (2025) destacam que a prática constitui espaço privilegiado de produção e ressignificação dos saberes, sendo fundamental para a constituição da identidade profissional. Assim, o caminho de Emaús configura-se como um processo completo de formação: parte da experiência, passa pela problematização, articula saberes, culmina na experiência significativa e se desdobra em ação transformadora, reafirmando que educar é, essencialmente, formar sujeitos capazes de agir com sentido, esperança e responsabilidade na realidade em que vivem. 


Diego Andrade De Jesus LelisDoutor e mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Graduado em Filosofia, Teologia e Geografia. Atua como coordenador de Pastoral, Pós-Graduação e Extensão no Claretiano Centro Universitário de Batatais, e como coordenador de Pastoral da Rede Claretiano de Educação. É religioso Missionário Claretiano. 

 

Nota 

  1. Este artigo corresponde ao terceiro capítulo do Trabalho de Conclusão de Curso, intitulado A pedagogia de Jesus como inspiração para a promoção da educação integral na educação básica à luz da BNCC, apresentado pelo autor ao Curso de Licenciatura em Pedagogia, do Claretiano – Centro Universitário, na cidade de São Paulo – SP, no ano de 2026. 

Referências 

  • BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.
  • CORREIA JÚNIOR, João Luiz; SILVA, Eunaide Monteiro de Almeida da. Uma interpretação da pedagogia de Jesus à luz da pedagogia de Paulo Freire. Revista de Cultura Teológica, São Paulo, ano XXVIII, n. 96, p. 292-309, maio-ago. 2020. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/culturateo/article/view/47501. Acesso em: 28 fev. 2026.
  • COSTA, Tiago João Martins. Emaús: a idolatria dos discípulos, a distância salutar e a pedagogia de Jesus: leitura sistemático-pastoral de Lucas 24,13-35. 2021. Dissertação (Mestrado Integrado em Teologia) – Universidade Católica Portuguesa, Braga, 2021. Disponível em: https://repositorio.ucp.pt/handle/10400.14/35527. Acesso em: 28 fev. 2026.
  • FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 23. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 37. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2001.
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 42. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
  • PIMENTA, Selma Garrido. Saberes pedagógicos e atividade docente. 9. ed. São Paulo: Cortez, 2021.
  • RIDOLFI, Luiz et al. Fundamentos dos saberes docentes na formação de professores: aproximações entre Tardif, Pimenta e Freire. Revista Ibero-Americana De Humanidades, Ciências E Educação, 11(11), 2025.
  • TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. 17. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. 

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