Pedagogia de Jesus e educação integral na BNCC

Como as categorias constitutivas da Pedagogia de Jesus podem fundamentar e inspirar a promoção da educação integral na Educação Básica à luz das competências gerais da Base Nacional Comum Curricular? No texto, o autor discute a Pedagogia de Jesus, especialmente evidenciada no relato dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35), e estabelece um diálogo com os princípios da educação integral. Nesse esforço, oferece um referencial teórico e prático consistente para sua compreensão e implementação no contexto educacional contemporâneo [1].
A discussão acerca da educação integral [2] ocupa lugar central nas políticas educacionais contemporâneas, especialmente no contexto brasileiro, com a consolidação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) como documento normativo orientador da Educação Básica. Ao propor a formação do estudante em sua integralidade, a BNCC rompe com perspectivas reducionistas de ensino e afirma a necessidade de uma educação que articule dimensões cognitivas, socioemocionais, éticas e culturais. Nesse horizonte, o diálogo com a Pedagogia de Jesus revela-se fecundo, na medida em que permite identificar convergências estruturais entre uma prática formativa integral, de caráter relacional e transformador, e os princípios que orientam a educação contemporânea (Couto, 2016).
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A orientação apresentada pela BNCC explicita que o Ensino Médio assume uma função de síntese e projeção do percurso formativo, ao articular a continuidade das aprendizagens com a construção do projeto de vida dos estudantes. Não se trata apenas de aprofundar conteúdos, mas de integrar saberes, experiências e valores em uma direção existencial, na qual o sujeito é chamado a posicionar-se diante do mundo com responsabilidade ética e compromisso social. Nesse sentido, a noção de formação integral ganha densidade ao vincular conhecimento e sentido, aprendizagem e finalidade, deslocando a educação para o campo da decisão e da autoria da própria trajetória.
Essa perspectiva encontra ressonância na Pedagogia de Jesus, na medida em que sua prática educativa não se limita à transmissão de ensinamentos, mas orienta os sujeitos à construção de um caminho de vida fundamentado em valores como justiça, solidariedade e cuidado com o outro. Ao convidar seus interlocutores à conversão do olhar e à escolha consciente de um modo de viver, Jesus promove uma educação que integra liberdade e responsabilidade, interioridade e ação. Assim, a proposta da BNCC, ao enfatizar o projeto de vida em consonância com princípios éticos e cidadãos, aproxima-se de uma lógica formativa que reconhece o educando como sujeito histórico, capaz de discernir, decidir e agir de forma comprometida com a transformação da realidade.
A BNCC explicita que a educação deve promover o desenvolvimento de competências entendidas como a mobilização de “conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do exercício da cidadania e do mundo do trabalho” (Brasil, 2018, p. 8). Tal definição amplia significativamente o conceito de aprendizagem, deslocando-o de uma lógica centrada na aquisição de conteúdos para uma perspectiva que envolve o sujeito em sua totalidade. Nesse sentido, a formação integral não se restringe ao domínio cognitivo, mas inclui a construção de valores, o desenvolvimento da autonomia, a capacidade de convivência e a atuação responsável na sociedade.
Essa concepção dialoga diretamente com a Pedagogia de Jesus, tal como evidenciada no caminho de Emaús (Lc 24,13-35). Nesse relato bíblico, o processo formativo conduzido por Jesus não se limita à explicação de conteúdos religiosos, mas envolve a escuta da experiência, a problematização da realidade, a mediação interpretativa e a transformação do sujeito. Trata-se de uma pedagogia que integra saber, experiência e ação, configurando uma prática formativa que antecipa, em termos históricos e existenciais, aquilo que hoje se denomina educação integral.
A noção de integralidade, nesse contexto, pode ser compreendida como a articulação entre diferentes dimensões da formação humana (Martinelli, 2020). Pimenta (2021) destaca que a formação docente exige a integração entre saberes do conhecimento, saberes pedagógicos e saberes da experiência, indicando que a prática educativa não pode ser fragmentada. De modo semelhante, Tardif (2014) afirma que os saberes docentes são plurais e interdependentes, sendo produzidos na relação entre teoria e prática. Essa compreensão permite afirmar que a educação integral não se realiza pela soma de conteúdos, mas pela articulação entre diferentes dimensões do sujeito e do conhecimento.
Freire contribui decisivamente para essa reflexão ao afirmar que a educação autêntica é aquela que possibilita a formação de sujeitos críticos e conscientes de sua inserção no mundo. Para o autor, “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção” (Freire, 2001, p. 25). Essa perspectiva desloca o foco da educação para o processo formativo, no qual o estudante assume papel ativo na construção do conhecimento. Em Emaús, essa dinâmica é evidente: os discípulos não recebem uma verdade pronta, mas são conduzidos a reinterpretar sua experiência e a reconstruir o sentido do vivido.
Ao analisar as competências gerais da BNCC, é possível identificar convergências significativas com a Pedagogia de Jesus. A primeira competência, que trata do conhecimento como instrumento para compreender e transformar a realidade, encontra correspondência na mediação realizada por Jesus ao reinterpretar a experiência dos discípulos à luz das Escrituras (Lc 24,27). A competência relacionada ao pensamento crítico e criativo dialoga com o processo de problematização, no qual os discípulos são desafiados a superar uma leitura superficial dos acontecimentos. Nesse sentido, também é importante fortalecer a autonomia desses adolescentes, oferecendo-lhes condições e ferramentas para acessar e interagir criticamente com diferentes conhecimentos e fontes de informação (Brasil, 2018, p.60).
Da mesma forma, a competência que enfatiza a empatia, o diálogo e a cooperação encontra paralelo na dimensão relacional da Pedagogia de Jesus, que se inicia na escuta e se desenvolve no encontro. A afirmação freiriana de que o educador deve respeitar a autonomia do educando e construir o conhecimento em diálogo reforça essa convergência (Freire, 2001). A Pedagogia de Jesus, nesse sentido, não é impositiva, mas dialógica, reconhecendo o outro como sujeito do processo formativo.
A dimensão ética, também central na BNCC, manifesta-se de forma clara na prática pedagógica de Jesus. Ao articular conhecimento e vida, Jesus promove uma formação orientada por valores, na qual o saber não se dissocia da ação. O gesto de partir o pão (Lc 24,31), que culmina no reconhecimento, evidencia que a aprendizagem se realiza na experiência concreta, integrando dimensão cognitiva e ética. Insere-se nesse contexto também a preocupação presente na BNCC sobre a formação ética dos estudantes em relação aos discursos de ódios e afins. Considera-se que os estudantes ao concluírem a educação básica devem ser capazes de “analisar informações, argumentos e opiniões manifestados em interações sociais e nos meios de comunicação, posicionando-se ética e criticamente em relação a conteúdos discriminatórios que ferem direitos humanos e ambientais” (Brasil, 2018, p.87).
Além disso, a competência que trata do projeto de vida pode ser relacionada à transformação dos discípulos em Emaús. Ao retornarem a Jerusalém (Lc 24,33), eles assumem uma nova postura diante da realidade, indicando que o processo formativo resultou em reorientação existencial. Nesse sentido, a educação integral, conforme proposta pela BNCC, não se limita ao desenvolvimento de habilidades, mas envolve a construção de sentido e de direção para a vida.
A partir dessas convergências, torna-se possível avançar para as implicações pedagógicas. A primeira delas diz respeito ao ensino dialógico. Inspirado na Pedagogia de Jesus e fundamentado em Freire, o ensino deve ser compreendido como processo de construção compartilhada do conhecimento, no qual o diálogo constitui elemento central. Isso implica reconhecer o estudante como sujeito ativo, capaz de interpretar, questionar e transformar a realidade.
A segunda implicação refere-se à formação ética. A educação integral exige que o conhecimento esteja orientado por valores, promovendo a responsabilidade, a solidariedade e o compromisso com o bem comum. Nesse sentido, a Pedagogia de Jesus oferece um referencial consistente, ao integrar saber e prática em uma perspectiva transformadora.
O protagonismo do estudante constitui outra dimensão fundamental. A BNCC enfatiza a necessidade de desenvolver a autonomia e a capacidade de tomar decisões. Em Emaús, os discípulos não são conduzidos de forma passiva; eles participam ativamente do processo, reinterpretando sua experiência e assumindo nova postura. Esse movimento evidencia que a aprendizagem significativa ocorre quando o sujeito se envolve no processo formativo.
Destaca-se a importância da aprendizagem significativa, entendida como aquela que estabelece relação entre o conhecimento e a experiência do sujeito. A Pedagogia de Jesus, ao partir da realidade concreta e conduzir à transformação, exemplifica esse tipo de aprendizagem. Como afirma Freire (2001), o conhecimento só se torna significativo quando está vinculado à prática e à realidade vivida.
Dessa forma, o diálogo entre a Pedagogia de Jesus e a BNCC permite afirmar que a educação integral não é apenas uma diretriz normativa, mas uma exigência formativa que encontra respaldo em práticas pedagógicas historicamente significativas. A Pedagogia de Jesus, ao integrar escuta, diálogo, reflexão e ação, oferece elementos consistentes para pensar uma educação que supere a fragmentação e promova o desenvolvimento pleno do sujeito.
Diego Andrade De Jesus Lelis. Doutor e mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Graduado em Filosofia, Teologia e Geografia. Atua como coordenador de Pastoral, Pós-Graduação e Extensão no Claretiano Centro Universitário de Batatais, e como coordenador de Pastoral da Rede Claretiano de Educação. É religioso Missionário Claretiano.
Notas
- Este artigo corresponde ao quarto capítulo do Trabalho de Conclusão de Curso, intitulado A pedagogia de Jesus como inspiração para a promoção da educação integral na educação básica à luz da BNCC, apresentado pelo autor ao Curso de Licenciatura em Pedagogia, do Claretiano – Centro Universitário, na cidade de São Paulo – SP, no ano de 2026.
- O conceito de educação integral com o qual a BNCC está comprometida se refere à construção intencional de processos educativos que promovam aprendizagens sintonizadas com as necessidades, as possibilidades e os interesses dos estudantes e, também, com os desafios da sociedade contemporânea. Isso supõe considerar as diferentes infâncias e juventudes, as diversas culturas juvenis e seu potencial de criar novas formas de existir (Brasil, 2018, p. 14).
Referências
- BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.
- BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_publicacao.pdf. Acesso em: 28 fev. 2026.
- COUTO, Marcos Antônio Campos. Base Nacional Comum Curricular – BNCC Componente Curricular: Geografia. Revista da ANPEGE, [s. l.], v. 12, n. 19, p. 183–203, 2016.
- FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 37. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2001.
- MARTINELLI, Líliam Maria Born. A formação dos professores subsidiada pela concepção da teoria da complexidade e visão da ecologia integral. 2020. Tese (Doutorado em Educação) – Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 2020.
- PIMENTA, Selma Garrido. Saberes pedagógicos e atividade docente. 9. ed. São Paulo: Cortez, 2021.
- TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. 17. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.


